O leitor escreve





O valor de uma alma
Qualquer assassinato é trágico, mas esse que houve com o Edmond Safra é chocante, disse o presidente FHC, segundo a notícia da Folha. Ele tem razão. Para nós, só quem tem dinheiro merece atenção. Para nós, só quem faz algo para si ou para os outros, que chame a atenção, tem valor. Só essas pessoas ganham manchetes nos jornais. Só essas pessoas me fazem ler a matéria até o fim com a atenção de romance. Sábado passado morreu baleado um rapaz perto de casa, um tal de ‘‘Pibe’’. Nem liguei; não o conheço, talvez nunca o tenha visto e ele não era importante para mim e muito menos para os jornais.
A Bíblia diz que uma alma vale mais que o mundo inteiro. Mas a rotina da morte, da desgraça, do roubo, do individualismo nos dessensibiliza. Aliás, só ficamos sensibilizados por quem tem valor financeiro, histórico, social ou que, mesmo que não tenha isso, apareça frequentemente na mídia. Quantos ‘‘pibes’’ não morrem todos os dias? Que Deus tenha misericórdia de nós. Que o Senhor tenha misericórdia de mim.
- EDUARDO NUNES MILITÃO, Curitiba
Duplo padrão
Em Brasília, a PM, numa ação desastrada, faz uma repressão totalmente desproporcional ao potencial ofensivo uma manifestação pacífica de trabalhadores, mutila duas pessoas e mata uma, provocando manifestações iradas em vários setores da sociedade, inclusive a do ministro da Justiça. Com muita razão caíram o secretário da Segurança Pública e os oficiais diretamente envolvidos na tragédia. A nação não pode admitir este tipo de coisa.
A regra do duplo padrão é simples, se você fizer parte de um grupo escolhido, como grevista, ‘‘sem alguma coisa’’, preso, menor ‘‘infrator’’, índio, animal silvestre etc., e vier sofrer violência por parte do Estado, ativará imediatamente os mecanismos de ira do atual governo ou de ONGs diversas e haverá o maior barulho. Se ao contrário, você apenas fizer parte da maioria, ou seja, for um reles cidadão, vai estar por sua conta e risco, e o crime que vier a sofrer será explicado pelo Executivo e pelas mesmas ONGs, como consequência natural da ‘‘violência gerada pela crise que esgarça o tecido social’’, ou ainda pela violência na TV e pelas armas legais do cidadão.
Trata-se do duplo padrão da era FHC. O problema não é a gravidade do crime, o número de mortos ou a falência da política de segurança pública adotada. O problema é o agente do crime; se for policial ou cidadão, é motivo de alarme. A inércia de autoridades ou o crime cometido por um criminoso contumaz já não é tão problema assim.
Enquanto toda a população e a imprensa denunciavam a expansão do narcotráfico, houve uma inexplicável inércia de cinco anos de FHC no enfrentamento da questão, mas bastou surgirem os sinais de que a população apoiava decisivamente a CPI do Narcotráfico para que o governo saísse da moita e se dispusesse a cumprir o seu papel, criando um ‘‘grupo especial’’, fazendo a pirotécnica ‘‘Operação Mandacaru’’ com dia e hora marcadas e aumentando os efetivos da Polícia Federal em 1.000 homens. Nem tudo está perdido, o governo está programando um dia de paz, não sem crimes, mas sem notícias deles. Para acabar com a febre basta quebrar o termômetro. É a censura à imprensa no combate ao crime.
- LUIZ AFONSO S.P. SANTOS, filósofo, São Paulo (SP)
Férias
A reportargem ‘‘Férias coletivas dão as mesmas garantias de lei’’, publicada ontem, traz um exemplo de cálculo de férias de um empregado com 2 meses de trabalho. O problema é que, com 2 meses de trabalho o empregado tem direito a 5 dias de férias, e não 6 dias. Isto porque este cálculo é feito à razão de 2,5 dias de férias por mês trabalhado, uma vez que, com um ano de trabalho, o empregado adquire direito a 30 dias de férias (30/12=2,5). Assim, no exemplo, a empresa deveria dar 5 dias de férias e pagar como licença remunerada outros 5 dias.
- EMERSON COSTA LEMES, contador, Londrina
Preconceito
A dificuldade em retratar a segregação racial no Brasil é conflitante (‘‘Rapaz enfrenta preconceiro por ser negro’’, notícia publicada ontem no primeiro caderno). A sociedade brasileira pratica o preconceito de forma velada. Quase todos nós discriminamos inconscientemente, mas não temos coragem de admitir. Uma grande parte da sociedade olha com desconfiança para um ser social de classe diferente, não precisa ser negro, embora ocorra o debate sobre a discriminação racial, a social é muito ampla e a polícia pratica aquilo que a sociedade faz de forma inconsciente.
- JUSCELINO DE CASTRO, Reserva do Iguaçu
Discurso sobre o método
O discurso de Descartes descreve um método próprio através do qual o filósofo poderia chegar a várias conclusões no campo da matemática e da metafísica por conta própria. E é incrível constatar que após quase quatrocentos anos decorridos, a premissa básica do enunciador do aforismo ‘‘penso, logo existo’’ não foi compreendida pela grande maioria dos seres humanos.
A razão humana não deveria aceitar passivamente, credulamente, nenhum conhecimento. A atividade da inteligência, resumida aqui na razoar e no pensar, deveria filtrar e analisar tudo aquilo que em matéria de conceitos pudesse ter sido transmitido através da educação recebida. Em resumo: às favas com toda a tralha conceitual medieval em favor de uma revisão geral dos conceitos, a começar pelo da própria vida: viver por quê? Viver para quê? O método principia com a negação geral e com o axioma ou pressuposto básico: ‘‘penso, logo existo’’.
Dos seres vivos conhecidos, só o homem pensa, ou seja, produz idéias e pensamentos. Numa linguagem mais apropriada diríamos que só o homem pode pensar; porque a maioria não pensa; imagina que o faça quando, na verdade, segue o pensamento já pensado ou criado por outras pessoas; é a ilusão da criação mental de uma humanidade acostumada e acomodada à condição de espectadora do drama humano. Pensar implica a criação mental; criar idéias e pensamentos que se consubstanciem em ação e sirvam para o bem e aperfeiçoamento próprio e dos semelhantes.
Assim, o ‘‘penso, logo existo’’, tradução do ‘‘cogito ergo sum’’, poderia ser substituído por ‘‘crio, logo existo’’, pois somente tornando-se um criador se poderá eternizar através da obra criada. E como a maior obra de arte que se poderá criar seria a de esculpir em si mesmo um novo ser humano através da evolução pessoal, cada um, tornando-se um criador de si mesmo, poderia afirmar que é a imagem e semelhança de um Criador maior.
- NAGIB ANDERAOS NETO, São Paulo (SP)
Futebol
Não tem coisa mais simples que um campeonato de futebol. Nos principais países da Europa ele tem o mesmo regulamento há décadas. É tudo muito lógico, ao final da temporada descem dois e sobem dois; se for o time do rei que ficar em último lugar, ele desce com toda a pompa real. Aqui no Brasil se muda a cada ano para beneficiar alguém. Os portugueses estão morrendo de rir. Como é que o último colocado, Sport, não desce? Só sendo coisa de gênios.
- JUVENAL DE SOUZA, Jaboatão (PE)
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