Reis da selva
Quando pensamos estar alcançando um nível melhor de convivência social, o ser humano mostra-se como um ser irracional e senhor de atos torpes e repudiantes. Engraçado termos de ensinar às nossas crianças que somos animais diferentes dos outros: somos ‘racionais!’ Difícil mesmo. Isto porque os chamados ‘animais irracionais’ têm entre si uma forma de sociedade muito mais justa e equilibrada que a nossa, principalmente porque matam simplesmente por instinto, por necessidade física, seguindo a lei da selva. E nós?
Afirmar que todo esse quadro grotesco que a sociedade vem pintando é fruto da vida moderna, da agitação do dia-a-dia, é pura ilusão. Prova disso é que mesmo desde os tempos mais remotos o ser humano vem mostrando essa sua faceta violenta e aterrorizante. O fato mais recente e de repercussão internacional foi a interrupção precoce da vida do índio Galdino (utilizo-me de um eufemismo para amenizar as circunstâncias, por si só tão bárbaras). ‘...Pensamos que era um mendigo...’, disseram os animais ‘racionais’. E se fosse? Justificaria a atitude desumana? Dessa maneira, onde pretendemos chegar? Será que um dia vamos chegar a algum lugar? Nossos filhos terão de seguir nossas pegadas procurando dois ou quatro passos na terra? Só mesmo Deus em sua infinita sabedoria deve ser capaz de entender sua mais sublime criação: o ser humano. Mas, com certeza, não foi para isso que Ele nos criou.
- LUCILENE BARATELA RIBEIRO OLIVEIRA, Maringá
Dia do Índio
Na semana em que se comemora o Dia do Índio, brasileiros de classe média, sem o menor senso de dignidade humana, tripudiam sobre a vida de outro da sua espécie, num ritual macabro e medonho. A insanidade social venceu todas as barreiras. O crime hediondo, praticado contra o cacique pataxó em Brasília, põe à mostra a perversidade amparada no cinismo que predomina na cultura do oportunismo, da superioridade e do individualismo exacerbado que atravessa as relações sociais deste país. A indiferença pela vida do outro, antídoto de qualquer forma ou expressão de solidariedade, vem ganhando o jogo por uma possível cidadania há muito tempo, e nós assistimos a tudo isso com uma sensibilidade frágil e inconsistente. Somos capazes de ir às lágrimas assistindo a um filme como ‘Dança com lobos’, fartamente premiado, mas sem qualquer pudor, sancionamos todas as justificativas para explicar o inexplicável.
Não há desculpas possíveis para o ato praticado por esses delinquentes, ‘educados’ no carpete e no ar condicionado. Há sim uma dor profunda, cujo grito atravessa o nosso continente e atinge os interesses internacionais do Brasil. As responsabilidades têm que ser apuradas, mas antes terão que ser assumidas. Cada cidadão brasileiro deveria se perguntar o que tem feito para que crimes como esse não mais aconteçam e a cada dia ensinar aos seus filhos que somos apenas um dos microfios que tecem a vida no planeta.
- CRISTIANA ARCANGELI, presidente da Fundação Phytoervas de Proteção ao Índio Brasileiro, São Paulo
Londres - Londrina
Com satisfação vimos o prof. Nelson Tomazi concluir sua tese de doutoramento sobre a colonização do Norte do Paraná. Trata-se de importante trabalho que coloca em xeque versões oficiais, em linha de pesquisa similar à já desenvolvida por José Joffily, em seu livro Londres-Londrina, publicado em 1985, pela Editora Paz e Terra. Em sua obra, Joffily procurou desmistificar a idéia de abnegação dos colonizadores e salientar os interesses comerciais que motivaram o empreendimento resultante na Cia. Melhoramentos do Norte do Paraná. Para isso analisou documentos extraídos de fontes primárias, em exaustivo trabalho de pesquisa em arquivos no país e no exterior, contrapondo-os a documentos oficiais. De acordo com ele, ‘é impossível conhecer a colonização do Norte do Paraná sem passar pelo nosso endividamento externo’, dedicando boa parte do livro às relações entre Lord Lovat e Rothschild com o governo brasileiro.
Outros aspectos revistos pelo autor são também agora desmistificados pelo prof. Tomazi. Por exemplo, no capítulo 7 - Agressão à natureza - Joffily já tratava da expulsão do índio e da marginalização dos ‘vencidos’. Certamente o trabalho do competente sociólogo traz aspectos inovadores a respeito de mitos perpetuados pela história oficial, mas, com certeza também o prof. Tomazi concorda que a contribuição de José Joffily não pode ser ignorada, e merecia figurar dentre os trabalhos citados na reportagem publicada domingo passado na Folha.
- MIRIAN ROSE AUGUSTO, Londrina

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