O Leitor Escreve
O Leitor Escreve
Dia da Mulher (1)
O ano era 1857. O lugar, uma fábrica têxtil em Nova York, onde 129 trabalhadoras foram mortas porque lutavam pela redução da jornada de trabalho. Em 1910, em Copenhague, na 2ª Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, por indicação de Clara Zetkin, foi instituído o Dia Internacional da Mulher em homenagem a estas operárias têxteis. O ano é 1999. O lugar, São Paulo, Brasil, onde mulheres, integrantes de diferentes organizações e seguimentos sociais, saem às ruas para comemorar o seu dia, 8 de Março. Mas a comemoração destas mulheres se dá de uma forma diferente, através do protesto, da indignação frente às consequências que a crise, em que vive o País, traz para os lares brasileiros.
Mães, companheiras, irmãs, filhas convivem com a crescente onda de violência que mata 230 pessoas num fim de semana na maior capital do País. A violência que está em cada esquina a nos espreitar nos faróis e que, invisível para a sociedade, toma proporções inadimissíveis quando assume a forma da violência doméstica e sexual. Segundo a Sociedade Mundial de Vitimologia da Holanda, 23% das mulheres brasileiras estão sujeitas à violência doméstica.
A entrada da mulher no mercado de trabalho é uma realidade na vida dos brasileiros. Ocupamos espaços inimagináveis para nossas avós. Por outro lado, apesar do grau de escolaridade das mulheres ser superior ao dos homens, elas continuam recebendo salários menores e não chegam aos postos de comando e de decisão. O Censo de 1995 já apontava que 54% das assalariadas não tinham carteira assinada. A trabalhadora convive, no seu dia-a-dia, com a dupla jornada de trabalho, estando sob sua responsabilidade as tarefas domésticas e a maternagem. A falta de equipamentos sociais como creche, direito universal da criança, é hoje motivo de inquietação para a mãe trabalhadora, principalmente para aquelas que hoje chefiam 1/3 das famílias brasileiras, que nem sempre têm onde deixar seus filhos.
Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, olhar para os 500 anos passados, durante os quais as mulheres conquistaram com luta um espaço único, é refletir sobre o que queremos para o futuro: nenhum direito a menos, alguns direitos a mais. Agora são outros 500...
- LIEGE ROCHA, Coordenadora Nacional da UBM (União Brasileira de Mulheres)
Dia da Mulher (2)
A mulher não é mais uma coadjuvante. Recusa-se a ser inferior, subordinada. Ela quer ser parceira. Direitos iguais, deveres, idem. A trajetória rumo a esta parceria foi e está sendo aberta a fórceps, tendo à frente mulheres corajosas que desafiaram os preconceitos, a cultura machista que as inferiorizava, e que, ao longo dos tempos, confundiu-se com as lutas pela democracia e pelos direitos dos oprimidos: das feministas dos quilombos, das confederadas do Equador, de uma Nísia Floresta (que criou a 1ª escola para meninas, no Rio Grande do Norte, em 1838), de uma Chiquinha Gonzaga, de uma Berta Luzt, Olga de Paiva Meira, e tantas outras que anônimas ou famosas, abriram caminho para esta mudança na nossa condição e, por extensão, na própria sociedade.
Nada veio de graça: escola, creches, licença-maternidade, isonomia nos salários em algumas profissões (falta muito, ainda), e recentemente, a lei 9504/97 ampliando a participação de mulheres candidatas nas eleições proporcionais. Construir uma nova sociedade é possível, sim. Com parceria, sem relação de poder de posse. Aceitar as diferenças de gênero, as especificidades femininas, a visão feminina de mundo, sua posição ímpar - tudo é dever de todos que lutam para melhorar a sociedade e para que se chegue a uma democracia realmente igualitária.
- CIDINHA Z. CEMBRANELI, vereadora em Ibiporã
Dia da Mulher (3)
Existem várias situações que pesam nos ombros da mulher no dia-a-dia, na família, no trabalho, na sociedade. A mulher ainda vive hoje oprimida e marginalizada pelo preconceito, pela violência, e excesso de responsabilidade. Isto tudo começa na infância. Enquanto os meninos brincam, as meninas trabalham; o que os meninos sujam, as meninas têm que limpar. Isto tudo vem da má educação dentro do próprio lar, que sem querer acaba formando mulheres submissas e escravas do trabalho doméstico. A mulher é dona de casa e operária ao mesmo tempo, nunca pode falar não, sua opinião não é respeitada. É comum dizer que o lugar de mulher é pilotando fogão. Na antiguidade ela era propriedade do pai; quando casava, do marido. E a mulher trabalhadora é operária e mãe também; se sai de casa o filho chora, e se fica em casa o pão não vem. Neste 8 de Março, comemoramos a força da mulher, lutando por seus direitos, não mais abaixando a cabeça.
A mulher de hoje está preparada para enfrentar o mundo, se for necessário; sustenta a casa e cria filhos sozinhas. Zeladora, varredora de rua, faxineira, caminhoneira, taxista, motorista de ônibus, dentista, médica, camareira, cozinheira, prefeita, governadora, vereadora, radialista, telefonista, repórter, empresária, comerciária, metalúrgica, pedreira, operária de fábrica, secretária, bóia-fria, professora, engenheira, delegada, advogada, mãe e profissional. Em todas as profissões, lá vai a mulher, batalhando por um mundo melhor, um Brasil mais justo. Ela se levanta da opressão. Não somos mais objetos, somos cidadãs, lutamos para ajudar o marido, na educação dos filhos; não nos casamos para ser sustentadas e sim para caminharmos lado a lado, juntos, na esperança de um mundo melhor. A mulher mostra sua garra e vontade de vencer. Mulher sindicalista ou não, juntas formamos uma grande nação.
- CLEONILDA BATISTA TORRES, presidente do Sindicato dos Empregados em Empresas de Asseio e Conservação de Londrina e Região, Londrina
Correção
O engenheiro Marcelo Paulino é diretor técnico do Instituto de Desenvolvimento Educacional do Paraná (Fundepar) e não presidente do órgão, como foi publicado ontem em Folha Cidades. O presidente da Fundepar é Segismundo Morgstern.
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