O leitor escreve
O leitor escreve
Saudade de Londrina
Compartilho com os leitores da Folha duas frases geniais que meu amigo, português, filósofo e historiador da filosofia, residente em Portugal, disse-me outro dia e o tem grafado em livro (Introdução à saudade) Só Deus não tem saudade. Ou, como diziam os lusitanos mais antigos: Deus é o único ateu. E explicou: É ateu porque não tem que acreditar em outro deus e não tem saudade porque (no entendimento de Pinharanda, que é crente) tudo sabe, tudo tem, tudo observa perenemente.
Nós, que tanto dizemos que saudade é palavra única no mundo, sem similar no Planeta que a possa igualar na significação de nossas emoções em relação ao tempo e ao espaço, às vivências e ao mundo que nos cercava ainda há pouco e, no momento seguinte, já faz parte da nossa saudade, precisamos ler livros de Pinharanda, de Afonso Botelho e de Teixeira Pascoaes. Diz Pinharanda, de quem recebi uma caixa de livros portugueses, boa parte da sua lavra, quase todos editados pela Lello do Porto, que as palavras que mais se aproximam da nossa saudade são anyoransa (em catalão) e a¤oranza (em galego). Gonçalves Viana atesta essa correspondência. Em árabe, pelo que ensina João Ribeiro, há três palavras que lembram muito nossa saudade no significado mais profundo: suad, saudá e suaidá. Meu conhecimento do árabe não me permite grandes vôos léxicos nem semânticos, daí solicitar a algum árabe erudito, de Londrina, que me explicite o que em árabe significa mais profundamente a expressão Qualatni as - sua mão.
Como sou, não escondo, saudoso de tantas coisas, peço espaço para este registro dos velhos vocábulos: ssyidade, sodades, soldade, suidade ou saudade, que faz parte da nossa alma brasílica e, por herança, lusitana. Saudades que Teixeira de Pascoaes tão bem estudou em O Espírito lusitano ou o saudosismo. Quem, em Londrina, não tem saudade dos anos 60, quando a cidade não tinha violência? Que o diga o João Milanez. Saudade é um exercício diário de viagem ao pretérito sem que soframos. Saudade não implica sofrimento nem dor. Caso contrário não seria saudade.
- JORGE BALEEIRO DE LACERDA, Francisco Beltrão
Recomeço
Segunda-feira, 22 de fevereiro. Agora é que deve ser desejado o famoso feliz ano novo. As aulas começam para valer a partir de agora. O Congresso, as Assembléias Legislativas e Câmaras de Vereadores começam a trabalhar e encaminham matérias ligadas ao Executivo. As empresas também começam a contar com a presença de seus diretores, que até a semana passada estavam, na grande maioria, nas praias ou pescando. Afinal, é nesse 22 de fevereiro que o Brasil começa a tomar ritmo.
Da véspera do Natal até a semana passada a maioria dos brasileiros tira suas sagradas férias, escolares ou no trabalho. Assim a lei determina e a medicina recomenda. Faz-se um hiato de 60 dias em que vivemos movidos por uma cinestesia que termina na Quarta-Feira de Cinzas. Alguns ficam pessimistas ou derrotistas à frente dessa realidade, esquecendo que europeus e asiáticos amargam períodos maiores de um cinzento e perverso inverno. Dizer que o Brasil reduz o ritmo nesse período não deixa de ser verdade, porém, não se deve ignorar as grandes divisas conquistadas no setor turístico que, aí sim, devem ser canalizadas.
Devemos encarar tal realidade como fato concreto e não com pessimismo doentio, incrementando nosso turismo para todo o mundo. Possuímos as mais belas praias do Planeta, uma coleção de cidades históricas e uma vastidão e campos, pântanos, cachoeiras e florestas para o ecoturismo. Sem contar com os contagiantes vestibulares que colorem, alegram e aquecem a economia de centenas de cidades brasileiras.
Nessas mudanças de paradigmas e posturas que o País atravessa, abracemos juntos, poder público e iniciativa privada, o ano novo. Todos os anos fazemos este desafio. Ele nos faz mais felizes. Sempre depois do Carnaval. Feliz 1999.
- JOSELITO TANIOS HAJJAR, de Londrina
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