O LEITOR ESCREVE
Expropriação
Apesar de ser respeitador das leis, não sou suficientemente sábio para entender certos fatos que deixam confuso, entre o que é o justo e o legal. Sou testemunha dominical, quando vou à minha feira próxima do cemitério São Pedro. Lida particularmente difícil, sofrida, dura, diria quase humilhante, daquelas mulheres e daqueles homens, que labutam seu sustento nos panos estendidos no chão frio, sujo, esburacado, oferecendo quinquilharias aos passantes.
Me pasmo em vê-los sempre sorrindo, otimistas, orgulhosos de seus bric-a-bracs, um olho na gente, outro no arroz e feijão que suas singelas sacolagens trarão às suas mesas de longínquos conjuntos. Como nós que compramos, são puros-sangues do trabalho, do fato honesto, da boa venda, da luta pela vida. Ali não há drogas, vícios, tráfico ou muamba brava. São pobres, trabalham e ficarão pobres no ofício.
Expropriá-los de seus bens, que compraram com dinheiro ganho honestamente, é no mínimo falta de cidadania. É erro. Peço ao nosso Prefeito, que sei profundamente ligado à pobreza e às suas durezas, que entende os despossuidos, que interfira junto às autoridades e que lhes devolvam suas fortunas, sem as quais ficam muito à mingua. Há uma enorme urgência em consertar isso. Os que os prenderam e retiveram suas quinquilharias têm direito a alguma aposentadoria, a transporte confortável, a escritórios protegidos, a uma segurança que eles nem imaginam. Afinal, o que ali nos oferecem são salvados de uma viagem infame, frequentemente truncada por assaltantes. Sobrevivem a tudo, e perdem seus pequenos pertences... para a lei! Deveria ser proibido leiloar aquilo que foi tirado dos pobres, e uma grande vergonha tingirá qualquer um que, porventura e por dinheiro, arremate o que foi tirado de um despossuido, e que lucrava por seu pão à luz do dia, e em meio aos honestos!
Sinto, não só revolta, mas uma imensa vergonha de viver esse tipo de legalidade, quando vejo tanta ilegalidade passeando por aí, ou protegida pela lei, como esse lodaçal dos precatórios. Prender sacoleiros e perceber a injustiça no ar, os grandes ladrões soltos, eis um testemunho gritante e marcante, destes tempos decadentes que poluem a nossa história. Um dia essa notícia será motivo de tese sobre nossas iniquidades.
- LINCOLN BRAZIL E SILVA, Londrina
Fraternidade?
Dou graças a meu Deus por tanto pedir. Ele me ouviu. Deu-me uma graça de suportar tanta mentira. Em tudo isso tenho alegria. Sei que Jesus está comigo. Quando cheguei a esta cadeia tudo parecia morrer. Todos os sonhos e esperanças iam se desfazendo, num gesto triste de dor. Por trás das grades um grito de socorro que ninguém ouve. Os que mais sofrem são os suspeitos de crime, que lutam pela verdade e não conseguem, porque não podem fazer nada e condenam injustamente. Nos autos do processo foram mentirosos e com acusações falsas... Um suspeito carrega sua cruz. No desprezo o acusado já é réu. Muitas vezes o condenam para fazer um nome de honra, para defender seus interesses financeiros e políticos. Quando fui preso, um soldado dizia, ameaçando-me de morte, que o resto da minha vida eu passaria na prisão. Respondi-lhe que não matei ninguém e disse-lhe que só seria condenado se fosse com testemunhas falsas. Ele, furioso, me deu um tapa. Baixei a cabeça e disse: Desculpe se o ofendi com a verdade. Estes fatos são reais e aconteceram comigo, dia 1º de fevereiro, em Manoel Ribas. Tenho como testemunha Jesus Cristo, o Rei da verdade.
- JOÃO MARIA DA LUZ, Manoel Ribas
Injustiça
Sou um pai angustiado pela injustiça praticada contra meu filho, João Maria da Luz. Clamo por justiça e para que todos saibam a verdade. Meu filho é inocente. Está preso por um crime que não cometeu. Sofre diante de tanta injustiça e humilhação. Está sendo usado como bode expiatório. O filho de um milionário foi assassinado e a todo custo querem um culpado. Passo noites em claro e penso que, se eu fosse deputado, médico, advogado ou simplesmente um homem rico, meu filho jamais seria usado como bode expiatório. O verdadeiro autor do homicídio está solto.
A luz que dei, como sobrenome ao meu filho, vaga hoje presa em cela de cadeia. Clamo por justiça, como clama o pai de Marcelo. Que o assassino verdadeiro pague pelo que fez. Pior é que a Justiça, em suas limitações, não tem o poder de encontrar o criminoso e condena um inocente. Torna-se um crime que vale por três: um que perdeu a vida, outro perdeu a liberdade. O terceiro é o assassino na impunidade, solto, protegido pela sombra de um inocente. Peço caridosamente à família Kauling sua compreensão. Também sofremos com a morte de Marcelo. Jamais nosso filho teria feito tal ação criminosa. João e Marcelo eram amigos. Não há mentira que prevaleça diante da verdade.
- MANOEL DA LUZ FILHO, Manoel Ribas
Poder
Estamos ou não estamos numa democracia? Nós, brasileiros, vemos no poder Judiciário a mais alta corte de nossas esperanças, quando nos sentimos injustiçados. A ânsia do poder faz do déspota esclarecido o maior e mais perigoso inimigo do povo. É preciso humildade para reconhecer que os impulsos e a vontade pessoal de um dirigente não podem sobrepor ao Estado de Direito que norteia a vida de milhões de cidadãos brasileiros. Os direitos individuais constituem cláusulas pétreas e estão protegidos em nossa Constituição pelo Art. 60, justamente para nos defender da tirania de certos governantes que, apesar de passageiros, numa demonstração de arrogância e prepotência querem fazer prevalecer suas idéias pessoais.
Este governo, ao enfrentar o Judiciário e comprar o Legislativo, estará traçando, para o nosso país, um futuro duvidoso. Nós estamos cansados de saber que no mundo de hoje não tem mais lugar para a ditadura, tirania, ou qualquer coisa que a valha. Episódio recente, entre Executivo e Judiciário, denegriu profundamente a imagem do povo brasileiro no exterior. Nós, que estávamos em viagem, sentimos de perto a repulsa do mundo lá fora. Toda e qualquer discriminação é odiosa. Se foi dado para uma classe, por uma questão de justiça terá que ser também estendida às demais. Quando vem o Judiciário e tenta fazer justiça, o governo, num rasgo de vaidade e prepotência, tenta a decisão judicial, e por intermédio do deputado Luiz Carlos Hauly ameaça de demissão sumária ministro da suprema corte. Isto é um escândalo nacional. Não é à toa que o amigo de cátedra do presidente o chama de déspota esclarecido.
- JOÃO AMBRÓSIO DE OLIVEIRA, Londrina
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