Deveria ser assunto superado, mas Luiz Inácio Lula da Silva voltou a bater na tecla da desigualdade eleitoral proporcionada pelo mecanismo da reeleição. A uma platéia de 400 advogados reunidos em Brasília pela OAB, Lula reclamou dos superpoderes do presidente-candidato FHC.
Acusou o presidente de ter à mão dispositivos de que (ele, Lula) não dispõe para vencer a eleição. Afirmou que o princípio da reeleição tornou o processo eleitoral menos democrático e citou como exemplo a cadeia de rádio e TV convocada pelo presidente para explicar por que xingou de vagabundos os que se aposentam antes dos 50.
Como se distingue o candidato do presidente? - perguntou Lula. A mesma dúvida deve assombrar os adversários de Cristóvam Buarque, correligionário de Lula e candidato à reeleição no DF. Lula não pode, ou não deveria, fazer da reeleição e do uso da máquina bandeira de campanha.
Estão postas as regras do jogo e, se valem para FHC, servem também para o seu candidato ao governo de Brasília. Houve denúncias de compra de votos no caso da emenda da reeleição, mas o mecanismo legal foi aprovado pelo Congresso. De uma forma ou de outra, com denúncias ou não de corrupção, não há mais o que fazer. Repetir à exaustão a mesma ladainha parece falta de assunto. Lula deveria ter aproveitado o debate para falar de seu programa de governo.
Se consultar os que estão em cargos no sindicalismo - poucos se colocarão contra o princípio da reeleição. Os sindicalistas são exemplos vivos dessa prática. Alguns passam anos na presidência de entidades, reelegendo-se. Além de reclamar, Lula insinuou que FHC faz desaparecer do noticiário assuntos que não são de seu interesse. Exemplifica com a seca. São acusações descabidas feitas por Lula ao condenar um princípio que também favorece seu partido.
No seu livro ‘‘Revolução nas Prioridades’’, Cristóvam Buarque defende a renovação dos mandatos. Faz questão de enfatizar a necessidade de controle do uso da máquina. Mas, ao contrário de Lula, não vê quem está no poder como um candidato privilegiado.
A diferença entre quem tem mandato e os que concorrem sem estar no poder está na medida do legal e do legítimo. O governante pode e deve continuar governando. O país - ou o Estado - não pode parar. De resto, são os juízes - e ministros - que vão dizer o que está certo. Os tribunais também experimentam uma situação nova. A reeleição é novidade para todos.
Assim como o TRE tem agido em relação aos adversários de Cristóvam, o TSE está tornando inócuo o discurso de Lula.
- MIRIAN GURACIABA é jornalista em Brasília

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