O legado de Che Guevara - José Genoino
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de outubro de 1997
José Genoino 
Muitos políticos em atividade hoje começaram sua vida política sob o impacto da morte do lendário guerrilheiro Ernesto Che Guevara. Trata-se da chamada geração 68. Para as gerações mais recentes é difícil imaginar aquele período. Vários países da América Latina eram dominados por ditaduras militares, vivia-se o auge da Guerra Fria caracterizada pelo conflito ideológico entre capitalismo e socialismo, a revolução havia triunfado em Cuba e as mesmas misérias e injustiças que persistem hoje em nosso continente eram motivos de indignação, principalmente da intelectualidade e da juventude.
Trinta anos após sua morte, Guevara está numa situação paradoxal tanto em relação a uma das causas que motivaram suas ações como em relação à maior parte dos líderes mundiais da esquerda, já desaparecidos. Com efeito, o grande prestígio que o Che goza em todo o mundo contrasta com o declínio da idéia do socialismo e com a desvalorização de líderes como Lênin, Mao, Stálin, Fidel Castro, Trotsky etc. Assim, o sucesso que Guevara faz hoje deve ser, em parte, dissociado da sua relação com a militância de esquerda e com o socialismo.
Julgo que duas outras explicações fornecem pistas razoáveis para compreender o fenômeno Che iconizado por setores sociais muito diversos, que vão de adolescentes a cinquentões, de militantes de esquerda a torcidas de futebol. A primeira explicação deve ser buscada no heroísmo e no carisma que reveste a sua figura. A condição básica da existência do herói, desde os gregos antigos, é a de alguém que faz grandes feitos e profere importantes palavras e morre de forma trágica, geralmente ainda jovem. Aquiles e Jesus Cristo, entre outros, encarnam o protótipo do herói. A ação de Guevara está carregada destes elementos: sai da Argentina como um jovem sonhador cheio de ideais de justiça e de liberdade, viaja por vários países e chega ao poder com a Revolução Cubana. Desprendimento, coragem, bravura, são elementos que vão acompanhar esta trajetória e a trajetória posterior quando o Che abandona o poder e vai tentar novas revoluções na África e na América Latina até encontrar a morte trágica na Bolívia.
A outra explicação está relacionada aos valores que se associam à figura do guerrilheiro heróico e romântico: a indignação contra a injustiça, a busca da liberdade e da libertação de povos oprimidos, a disposição de sacrificar a própria vida em prol dos valores e das causas em que acreditava. Em suma, a ação e as palavras de Guevara deixaram um legado vinculado à defesa dos valores humanísticos e civilizatórios. A associação do heroísmo com os valores transformaram o Che num ícone, num emblema, especialmente para a juventude, que tende a se propagar pelas gerações futuras. Nesse sentido, Guevara tornou-se um símbolo universal que sobrepassa o caráter ideológico de suas ações.
A esquerda deve avaliar o legado de Guevara sob duas óticas. A primeira, diz respeito à significação positiva e universal explicitada acima. Compartícipe desta herança, a esquerda, contudo, não é sua proprietária exclusiva. Ela pertence a todos que, independentemente de ideologia, querem tomá-la como referência. A segunda ótica deve referir-se ao conteúdo especificamente de esquerda no inventário em questão. Os caminhos e os métodos usados por Che devem ser contextualizados e compreendidos como elementos daquelas circunstâncias marcadas por ditaduras, por conflitos ideológicos intensos e pelo ambiente da Guerra Fria. Hoje as condições e as circunstâncias históricas são outras. A própria revolução e o socialismo, tal como realmente se efetivaram, por não terem sacramentado os ideais de justiça e liberdade, estão sendo reavaliados.
O que há especificamente de esquerda a ser resgatado no legado guevarista são os valores que inspiraram as ações, as causas sociais que motivaram a indignação e a coerência e a responsabilidade que devem ser a norma de conduta de todo o homem político que acredita numa causa.
- JOSÉ GENOINO é deputado federal (PT/SP)


