O lado oculto do protecionismo
As trocas comerciais entre Brasil e Estados Unidos esbarram em diversas áreas de contencioso que entendemos necessário resolver antes que se coloque em funcionamento a ALCA. E uma dessas áreas é exatamente a de exportação de aço brasileiro para aquele país.
De alguma forma, a questão tem sido colocada em termos numéricos, apenas isso, sem que a questão possa ser examinada mais a fundo. E desse exame, podemos concluir que as medidas adotadas pelos norte-americanos para proteção de sua indústria siderúrgica estão se tornando em peso demasiado alto para sua economia, conforme vamos ver aqui.
A rigor, sobra pouco da indústria siderúrgica nos Estados Unidos. Em apenas quatro anos, 29 dessas companhias faliram ou entraram em concordata. Os operários, que, em 1974, passavam de 520 mil, hoje não chegam a 150 mil. Seus salários, no entanto, são os maiores do mundo. Um metalúrgico americano ganha US$ 38 por hora, quase o dobro do que recebem em média, os demais empregados na indústria. E o passivo de seus fundos de pensão e saúde já passa dos US$ 14 bilhões.
Ainda assim, e antes mesmo de adotar medida outras que levam à modernização das fábricas e à redução de custos, os senhores da siderurgia nos Estados Unidos, estão a exigir do presidente Bush que praticamente dobre as tarifas que hoje são cobradas sobre o aço importado. E isto irá afetar brutalmente nossa pauta de exportações para aquele país.
Mas a questão não se resolve mesmo nesse patamar. É que as indústrias consumidoras de aço começaram a se dar conta de que os custos para a manutenção da produção americana estão elevados em demasia. O aço importado, notadamente o brasileiro, é de melhor qualidade em comparação com o que é produzido ali e sairia, se fosse livre o comércio, a preços bem mais apetecíveis.
Adotadas as políticas protecionistas exigidas pelos barões do aço ianque, seriam recuperados pouco mais de 3,5 mil, que, no entanto, custariam, ao conjunto da economia americana, cerca de R$ 2 bilhões a cada ano. Feitos os cálculos, aquela economia iria dispender R$ 584 anualmente por emprego resgatado. Vale a pena?
Entre as maiores consumidoras de aço estão a indústria automobilística e a de bens de capital. Ora, automóveis e máquinas se produzem, mundo afora, do Brasil à Coréia , a preços bem mais competitivos. Desta forma, a proteção exigida por apenas um setor industrial acaba se tornando ônus exagerado para o conjunto das indústrias, as mesmas que empregam oito vezes mais trabalhadores que a siderurgia. Este, ao que vemos, é um dado pouco conhecido dessa política protecionista. E um argumento que deve ser arguído por nossos negociadores, a cada instante em que nos sentarmos à mesa para discutir trocas comerciais.
RUBENS BUENO é deputado federal e presidente do PPS-PR





