O AI-5 foi o acontecimento político-militar mais sinistro da história do Brasil, nos últimos 50 anos. Em seu 30º aniversário, dia 13 passado, a imprensa recordou a onda de estupidez e de loucuras que cobriu o País, daquele ato em diante. Falou-se da censura e de seu subproduto, a autocensura. Do terrorismo, das torturas, sequestros, de pessoas desaparecidas e assassinatos. Ignorou-se, porém, a vergonha da delação, que se institucionalizara em todas as áreas, inclusive nas redações. Foi um tempo cruel de irracionalismo quase generalizado. Que, aliás, parece ter ressurgido, nos dias que antecederam e se seguiram à rememoração dos anos terríveis do AI-5.
Além dos louvores à retórica do diálogo entre o sociólogo Fernando Henrique Cardoso e o metalúrgico Luís Inácio da Silva - conforme o presidente do Senado, senador Antonio Carlos Magalhães, definiu os dois interlocutores - o que resultou de concreto do encontro entre o presidente da República e o dirigente de honra do PT? Nada!
Quando convidado pelo marechal Lott, então ministro de Exército no governo Kubitschek, para uma reunião reservada na residência ministerial, o senador Otávio Mangabeira, um dos líderes da oposição à época, impôs condições que julgou importantes para preservar as duas partes: realizar o encontro no local de trabalho do ministro, o Ministério do Exército; esclarecer que a iniciativa da reunião fora do marechal; e divulgar, previamente, os assuntos que ali seriam debatidos. Lott desistiu da reunião, mas Mangabeira não comprometera a oposição nem sua autoridade oposicionista. O recuo do marechal só criou dificuldades políticas para o governo, pois ficou mais ou menos óbvio que ele não tinha problemas graves e urgentes a resolver em bate-papo com a oposição.
Incompreensível foi também o ataque dos EUA e da Inglaterra ao Iraque, determinado pelo presidente Clinton, a pretexto de que o Iraque dificultara a busca de armas proibidas em seu território. Suspeita-se que se trate de incidente inventado para permitir o bombardeio contra a ditadura Saddam Hussein, na operação denominada ‘‘Raposa do Deserto’’, alcunha do comandante nazista von Rommel, do Afrika Korps, vencedor dos americanos em Kasserine, na 2ª Guerra Mundial. Os inspetores não acharam nada em suas inspeções, mas esperavam que os mísseis contra o Iraque atingissem os esconderijos dessas armas. Dá para entender? Diz-se que 74% dos EUA apoiaram o ataque - feito à revelia da ONU. No exterior, os números são outros: 95% dos países condenaram a ‘‘Desert Fox’’, ditada, admite-se, pelo desespero de Clinton, em via de tentar responder ao processo de impeachment - instaurado no sábado passado - por haver mentido ao Congresso.
Por fim, o senador Roberto Requião constatou, na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, com base em auditoria sigilosa do Tribunal de Contas da União, realizada no Banco Central, que o Brasil não tinha um sistema confiável de controle das aplicações de suas reservas cambiais no exterior. Dos US$ 2,4 trilhões (!) de cambiais aplicadas em giros especulativos, cerca de US$ 200 bilhões o foram por oito corretoras estrangeiras, mediante comissões de 6% a 13% em cada aplicação. Calcula-se que isso tenha proporcionado às corretoras, até junho do ano passado, cerca de US$ 20 bilhões em comissões.
Enfim, são fatos inexplicáveis, ocorridos à margem das advertências da imprensa, a respeito das loucuras e violências do AI-5.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

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