O labirinto e o presidente
André Stumpf
Economia e política nem sempre se completam. Ocorrem casos em que as dinâmicas de um e outro processo entram em choque. Às vezes se harmonizam. É de bom tom gerir um assunto sempre de olho no outro. O presidente Fernando Henrique trabalhou assim no primeiro mandato. Aliás, antes. Ainda no governo Itamar Franco, no Ministério da Fazenda, preparou o Plano Real. Lançou a URV (Unidade Real de Valor, lembram?), que era uma espécie de dolarização. Teve sucesso. Conteve a inflação. E revelou ao País e ao mundo a moeda supervalorizada. O real apareceu no mercado valendo 0,85 do dólar norte-americano. Eram tempos ufanistas. Todos comemoraram o fim da inflação e o início da nova era de prosperidade e paz.
Foi a descoberta da terra prometida. Canaã. Tamanha foi a euforia que eventuais equívocos foram varridos para debaixo do tapete. Afinal de contas, o novo plano econômico conduziu o então ministro da Fazenda à presidência da República. Economia e política caminharam no passo certo e no tempo adequado.
A moeda supervalorizada serviu para conter a inflação. Permitiu a assim chamada farra dos importados. Ou seja, brasileiros passaram a sustentar empregos no exterior. E a engordar o comércio em Miami. As taxas de juros muito elevadas fizeram a farra dos investidores estrangeiros no Brasil. Um festival. Mas a preocupação política da época era garantir a reeleição do presidente. Situação nova. Exigia cautelas. As consequências do Plano Real foram esticadas ao máximo. Por coincidência, até às vésperas da reeleição.
Na área política, a cautela teve outro desenho. O presidente escolheu o adversário. Lula, do PT. E fez acordo com praticamente todos os demais partidos. Venceu. A enorme e abrangente aliança chegou ao poder no momento em que o Plano Real começou a fazer água. Se os remendos necessários ao projeto tivessem sido feitos antes, alguns problemas de hoje seriam experimentados naquela época. E a vitória seria mais difícil.
O único projeto implementado com régua e compasso foi o da reeleição. Teve custo elevado. E colocou o presidente da República na condição de prisioneiro de dois limites. Um é o tamanho e a abrangência da aliança. Ele é obrigado a negociar, várias vezes, com partidos diferentes, a cada nova iniciativa. Esse detalhe encarece a negociação e a torna mais lenta. Quase inexequível.
O outro limite é o FMI. É o verdadeiro gestor das contas públicas brasileiras. O Estado perdeu a capacidade de iniciativa. Não é por acaso que o ministro Valdeck Ornélas, da Previdência, está de malas prontas para ir a Washington explicar as mudanças na legislação dos aposentados. É lá que ele deve prestar contas.
É difícil antever o fim desse estado de coisas. Em 1982, o Brasil bateu às portas do FMI. Ainda no governo Figueiredo. A crise que se seguiu atravessou a década. Passou pelos sucessivos planos econômicos do governo Sarney, atingiu Collor no seu enlouquecido congelamento da poupança e chegou a Itamar. Só ali foi solucionado o problema. Em parte. Agora, o País revisita antigos fantasmas. Inflação e recessão. O fenômeno empurra candidaturas à Presidência para as ruas antes da hora e causa o final antecipado do atual governo. Fernando Henrique está dentro do labirinto que ele mesmo construiu.
- ANDRÉ STUMPF é jornalista em Brasília

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