O keneysianismo e o Brasil
Erasmo Garanhão
Até 1930, as economia de todos os países, influenciadas e capitaneadas pela Inglaterra, eram regidas pelos princípios clássicos. Era o liberalismo explícito do ‘‘laissez faire, laissez passer’’ (deixar fazer, deixar passar).
A doutrina era a seguinte: cada economia acomodava suas situações por si só, sem a interferência do governo. A lei da oferta e da procura resolvia todos os problemas: pleno emprego, taxas de juros, preços, salários, estabelecendo sempre um equilíbrio.
Se houvesse desemprego, os salários cairiam, os empresários passariam a empregar mais e restabelecer-se-ia o pleno emprego. Se os juros fossem altos, tornando o dinheiro mais caro, a procura diminuiria, haveria mais oferta de mercadoria. Os preços baixariam, restabelecendo a demanda. Os juros teriam que cair para provocar a expansão da moeda, que elevaria a demanda e assim por diante. Tudo na economia seria resolvido, fácil e automaticamente, pelas leis da natureza.
Mas, além desse propalado equilíbrio, o liberalismo econômico, filho da escola clássica da economia, tinha como dogma que ‘‘toda oferta criaria sua procura’’. Quer dizer: produza tudo que for possível, que tudo será vendido, sem problema.
A grande depressão de 1929, iniciada nos EUA, provou que este dogma era uma falácia, um absurdo. A produção brasileira de café que o diga. O preço da rubiácea caiu para 20% e Getúlio, ao assumir o governo, mandou queimar montanhas de sacos do nosso, então, principal produto.
Em 1936, John Maynardes Keynes, um lorde que nem economista era, explicou o fenômeno com seu keynesianismo, que revolucionou a interpretação econômica, pondo a baixo a mentira da escola clássica, do liberalismo econômico. Deu ênfase ao consumo. Este passaria comandar os agentes econômicos, porque o consumo exigiria investimento do sentido macro-econômico, e a poupança, transformada em produção, geraria riqueza para satisfazer o consumo, seja de bens, seja de serviços. Defendia, ainda, o efeito multiplicador dos depósitos bancários, transformados em empréstimos a juros baixos, propiciando mais consumo também.
Os governos, nas maiores crises, deveriam investir, mesmo que fosse pagando trabalhadores para carregar pedras de um lugar para outro e vice-versa.
Hoje, os dois governadores de grandes potências, de que se tem notícias, keynesianos são Bill Clinton e Tony Blair.
Os resultados estão aí: crescimento razoável e diminuição do desemprego, problema que assola o mundo com uma voracidade desumana.
Para obter resultados semelhantes, o Governo brasileiro poderia fazer a Secretaria da Receita Federal trabalhar com eficácia para cobrar impostos e a dívida ativa da União dos que devem pagar e não o fazem. Fazendo isto, estar-se-ia praticando a melhor política de distribuição de rendas, pois o dinheiro cobrado dos sonegadores - quase sempre ricos - poderia ser aplicado em políticas sociais tão reclamadas pela pobreza e estariamos reduzindo e caminhando para a eliminação do nosso déficit público.
Com o déficit público sob controle, poderíamos reduzir a taxa de juros aos patamares de países desenvolvidos. A relação dívida interna/Produto Interno Bruto sofreria uma queda gradativa e rápida, pois o PIB cresceria exponencialmente e a dívida tenderia a diminuir. A arrecadação de tributos municipais, estaduais e, principalmente, dos federais acompanharia, com certeza, o crescimento da produção nacional.
Nessa altura haveria possibilidade, inclusive, de simplificar o sistema tributário brasileiro, desonerando sobretudo a folha de pagamento, como estímulo à geração de produtos mais competitivos, em benefício do empresário sério e cumpridor de suas obrigações sociais.
Daí o país partiria para a produção, com estabilidade da moeda, com juros baixíssimos e com uma política expansionista, que geraria os milhares de empregos de que tanto necessitamos.
Os 160 milhões de brasileiros do nosso mercado interno comandaria o consumo keynesiano.
Em 10 anos, o Brasil seria uma grande potência e o liberalismo econômico poderia ser jogado no lixo, como Keynes fizera em 1936.
- ERASMO GARANHÃO é ex-secretário de Estado da Fazenda no Paraná, Rondônia e Londrina.

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