O jovem e a política
No Brasil, o direito ao voto é resultado de muitas lutas e conquistas. Até 1934, mulheres, negros, pobres e analfabetos eram proibidos de escolher os candidatos que governariam o País. Hoje em dia, o voto é um direito e uma obrigação para as pessoas entre 18 e 70 anos de idade. Em 1988, na Constituinte, os jovens com mais de 16 anos de idade conquistaram o direito de participar do processo eleitoral. Tenho muito orgulho de ter sido um dos autores da proposta e ajudei a mobilizar a sociedade para sua aprovação.
De lá para cá, muitos adolescentes tiraram o título de eleitor e compareceram às urnas. Segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), em 1989, 3,3 milhões de jovens de 16 e 17 anos tiraram seus títulos; em 1998, 1,88 milhão foi requerer o documento. Na verdade, os números oscilam de uma eleição para outra. E, nas eleições de 2000, voltaram a subir, atingindo 3,15 milhões, ou 2,9% do eleitorado.
Jovens alienados? Na minha opinião, esta realidade é coisa do passado. O desinteresse pela política ainda existe é verdade , mas isto está mudando. Uma pesquisa recente da CPM-Market Research com mais de 4 mil estudantes em São Paulo mostrou que 75% dos jovens acham que está na hora de acabar com aquela tradição de votar em quem rouba mas faz. Um terço respondeu que gostaria de receber mais informações sobre os políticos e seus currículos.
Outras pesquisas encomendadas por movimentos teens demonstram que a maioria dos jovens pesquisados valoriza o processo eleitoral. Para eles, votar é um modo de promover mudanças. Muitos acreditam que o voto é um exercício de cidadania e vêem nele uma esperança. São poucos os que rejeitam o ato de votar como algo inútil ou uma simples obrigação.
Estas mesmas pesquisas indicam que os jornais, as revistas e a Internet são os meios mais utilizados pelos jovens para se informar sobre política. Mas quase a metade leva em conta a propaganda eleitoral na TV, as pesquisas eleitorais, os professores e os pais como as principais fontes de informação. E com quem o jovem discute esses temas, debate a realidade política e as eleições? Com a família e os amigos, em sua maioria, também de acordo com os questionários. Se alguém ainda tinha dúvida, estas conclusões servem para mostrar como é importante estimular o diálogo e a participação destes futuros cidadãos na sociedade, transformando a eleição em um momento para a elevação da consciência política.
Estou convicto que os jovens querem uma renovação no cenário nacional. Alguns adolescentes podem até estar descrentes no poder de mudança através do voto, com alguma sensação de impotência para influir nessa realidade. Mas, insisto, somente a participação no processo de escolha dos representantes populares é que poderá provocar uma mudança qualitativa. Assim como um consumidor tem o direito de reclamar e ser ressarcido quando compra um produto danificado, o eleitor também tem o direito de voz quando se sentir lesado.
Os jovens costumam valorizar o direito conquistado e, com certeza, acreditam no poder de mudança do processo eleitoral. Escolher um candidato não é fácil, mas já que se conquistou esse poder de votar, com muito esforço, por que não aproveitar? Um voto tem o poder de mudar toda uma realidade. E lembro que nunca é tarde demais para aprender, para politizar.
RENAN CALHEIROS é líder do PMDB no Senado e ex-ministro da Justiça





