O jornal e a liberdade - Hélio Duque
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 15 de outubro de 1997
Hélio Duque 
Há 25 anos, nesse dia, morria o Correio da Manhã.
Em 1964, trabalhando com o Marechal Osvino Ferreira Alves, então presidente da Petrobrás, dividia o mês entre Salvador e Rio de Janeiro. O momento nacional era de grande turbulência. Na manhã de 1 º de abril estava no Rio, no Hotel Ambassador, e logo após o café entregam-me o jornal Correio da Manhã. Na primeira página o editorial era arrasador e pregava a deposição do governo de João Goulart com um título gigante: BASTA.
Muito jovem, senti que o governo estava no chão. Fui à Petrobrás, então sediada no edifício Ultramarino, ao lado da Igreja da Candelária. À tarde, voei para Salvador. À noite, já em casa, parentes e amigos solidários e preocupados, relatavam que a repressão começara com prisões e perseguições em grande número. Os golpistas haviam derrubado o governo constitucional brasileiro.
O editorial daquele que era o mais importante jornal político brasileiro fôra a senha detonadora do movimento autoritário que perduraria por 21 anos. Nessa época os jornais mais importantes do Rio, pela ordem , eram Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Última Hora, O Globo, Diário de Notícias, Diário Carioca e Tribuna da Imprensa.
Era dirigido por Niomar Muniz Sodré, viúva de Paulo Bittencourt que com sua a família fundara o jornal. Entendia o jornalismo como um serviço a ser prestado à sociedade. O Correio da Manhã, para Bittencourt, não deveria ser visto apenas como indústria, mas deveria ter a viabilidade econômica de uma indústria. Em 1922 moveu contra o presidente Artur Bernardes monumental campanha crítica que o obrigou a governar todo o seu período em estado de sítio permanente.
Era o tempo do chamado jornalismo romântico, apaixonado, onde a reportagem polêmica integrava o cotidiano das redações. As grandes reportagens eram a alma da imprensa.
Há 25 anos que o Correio da Manhã fechou. A razão: no dia 6 de abril de 1964, numa primeira crônica de Carlos Heitor Cony, O Ato e o Fato, começava a denunciar a ordem totalitária que se implantava. Na área política, os jornalistas Márcio Moreira Alves, Hermano Alves e Newton Rodrigues denunciavam as cassações de mandatos, demissões, prisões e torturas que a nova ordem espalhava pelos quatros cantos do país.
Transformou-se o Correio da Manhã na única voz da resistência democrática aos desmandos e arrivismo dos golpistas de abril. No dia 9, a edição do Ato Institucional n º1 desvirtuaria e rasgaria a ordem constitucional vigente. A partir daí, o jornal que fôra o detonador da senha do golpe, rompe com a nova ordem. Passa a sofrer, no primeiro momento, brutal asfixia econômica. Os passos seguintes foram sucessivos empastelamentos, apreensões de edições pelo Brasil afora. Naqueles tempos intolerantes o grande jornal da rua Gomes Freire foi o único oxigênio de liberdade no país.
Em 1968, após o Ato Institucional n º5, no mesmo dia, 13 de dezembro, o seu diretor Osvaldo Peralva foi preso e levado de camburão, arrancado de sua sala. O mesmo ocorreu com a sua presidente Niomar Muniz Sodré. A ditadura havia, definitavamente, se implantado. Com o combate permanente do Correio da Manhã, até o seu fechamento, em 1972.
O exemplo que fica é o da coerência democrática de um dos mais importantes órgãos de imprensa que o Brasil já teve. Apoiou a conspiração de abril, mas com ela rompeu seis dias depois, quando viu traído os ideais da liberdade. Um marco histórico de dignidade na imprensa brasileira e uma lição que não deve ser esquecida: a liberdade é inegociável.


