O jogo ilegal - Sérgio Spada
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 28 de outubro de 1997
Sérgio Spada 
Alguns temas, embora recorrentes, são verdadeiros tabus nacionais. É o caso da legalização do jogo. Por hipocrisia, essa atividade permanece na ilegalidade desde a década de 40.
Apesar disso, jogar no bicho, por exemplo, constitui-se em verdadeiro esporte nacional. Praticam este esporte, indiscriminadamente, de respeitáveis senhores até nossas vovós. Os 41 anos de ilegalidade serviram tão somente para alimentar a máquina de extorsão e corrupção que alcança especialmente o aparato policial.
Ultimamente, novas modalidades de jogos estão sendo colocadas à disposição da população em cada esquina. Bingos, caça níqueis, vídeo pôquer e os sempre noticiados cassinos clandestinos. Ao lado destes, a União e os Estados possuem diversas modalidades de loterias, jogos que excitam os sonhos dos brasileiros a cada vez que se acumulam prêmios.
Os mais bem afortunados, por sua vez despejam verdadeiras fortunas em cassinos legais situados fora das fronteiras do País. Paraguai e Argentina, para os de caixa mais baixa, Las Vegas ou Mônaco, para os de caixa alta.
Vale recordar que no passado, antes de ser colocado na ilegalidade, o jogo realizado através de cassinos foi fator de grande estímulo à atividade econômica e particularmente, à música e ao teatro. Grandes casas de espetáculos anexas a cassinos, no Rio e em São Paulo, foram palco para o lançamento de importantes nomes das artes nacionais, além de propiciarem um sem número de empregos para músicos, diretores, redatores e outras atividades necessárias ao funcionamento da atividade.
Encontra-se na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal projeto de lei que visa legalizar o jogo no Brasil. Embora seja uma atividade consentida, por ser de larga prática, há setores que insurgem contra a sua aprovação.
Analisando a questão estritamente sob o aspecto da realidade, é um contra senso a não aprovação imediata do jogo. A atividade existe, é reconhecida por ampla parcela da população em si mesma não se constitui nenhum atentado a valores de ordem moral ou ética.
Ao contrário, a manutenção do quadro atual é que se constitui em caldo de cultura para a proliferação de uma teia de práticas, todas típicas do submundo. Tráfico, sonegação, prostituição, corrupção, evasão de divisas são delitos associados à manutenção do jogo nessa clandestinidade consentida.
O bom senso manda que se regularize a atividade do jogo, e no caso dos cassinos, que sejam admitidas em áreas restritas, vocacionadas para o turismo. Foz do Iguaçu, por exemplo, que vive uma grave crise pela diminuição do número de visitantes em face da redução do valor das cotas de importação, receberia uma injeção de ânimo e criaria possibilidades de empregos para seus moradores se aí fosse instalado um cassino.
À luz do dia, o jogo reconhecido pela lei, além dos empregos que seriam criados, evitaria a evasão de divisas e se constituiria em uma nova fonte de recursos para o Estado através do recolhimento de impostos.
Assim como outros temas polêmicos, a questão do jogo deve merecer um enfrentamento sério, realista e sem preconceitos. A técnica do avestruz apenas denota uma conveniente hipocrisia ou interesses inconfessáveis. Os que de boa fé negam a possibilidade da legalização devem meditar sobre a quem interessa esse estado de coisas, quem lucra e se aproveita da situação.


