Tenha sido o grupo de Bin Laden, a Al Qaeda, ou qualquer outra combinação de pessoas e interesses enlouquecidos pelo ódio, o resultado das ações perpetradas desde de 11 de setembro foi muito além dos seus mais ambiciosos planos de inflicção de sofrimento e predação ao mundo ocidental - mas que se metastaseou por todas as sociedades.
Não há reconhecimento, nem consenso, mas as economias das nações estão em frangalhos; suas instituições organizacionais abaladas e os cidadãos comuns em pânico. Fala-se em guerra, mas, de fato, ainda não sabemos o que, exatamente, mudou nem como mudou. Talvez pela primeira vez na história do mundo, a grande maioria da humanidade encontra-se diante de um mesmo sentimento de insegurança. Como sabemos, desde Freud - e mesmo antes - a pior das sensações, geradora de paralisantes mecanismos psicológicos de defesa.
Terá sido isso tudo resultante do fato de que edifícios-ícones e vidas humanas foram destruídos, forças militares mobilizadas e da constatação de que serviços de correios ou dutos de ar-condicionado possam estar sendo utilizados para distribuir bactérias mortais? Ou é a versão?
Não há como escapar ao reexame do papel da mídia em nossas vidas. Uma jovem perguntou-me: como é que foi durante a Guerra? Referia-se à de 1939. Só as pessoas entre 75 e 90 anos, que viveram a Guerra, é que talvez saibam - e não aqui. No Brasil, era um assunto lido nos jornais e - pouco - ouvido pelo rádio. A evolução tecnológica das comunicações mudou tudo.
Creio que o primeiro evento divulgado instantaneamente pela mídia foi o assassinato de Kennedy, em 1963. Nas quatro décadas seguintes, ampliou-se e aperfeiçoou-se a rede.
Sem entrar na discussão sobre o que é notícia, ela é, sem dúvida, a mensagem que o meio transmite. O meio é a mensagem - como estudamos na Faculdade de Comunicação. Nas primeiras horas do 11 de setembro, na transmissão ao vivo - pela CNN - ouvi, do articulado ''âncora'' da estação, que tinham fechado suas portas aos boatos e especulações. Os fatos eram, então, maiores do que a disponibilidade de conteúdo. Gradualmente, contudo, as portas foram-se reabrindo. E não foram só as da CNN, pois há uma realidade perversa da mídia como produto de consumo: entre os anúncios, há espaços pouco flexíveis, de tempo ou papel, para preencher. Aliás, naquele dia 11, a emissora americana não transmitiu anúncios.
Na ânsia de promover a novidade das cartas envenenadas, jornais brasileiros noticiaram: Antraz chegou ao Rio. E, no dia seguinte: carta ao Times não continha bactérias. Não de todo dissimilar ao antigo, burocrático aviso aos navegantes da Voz do Brasil: não há aviso aos navegantes. Mas não é privilégio nosso. Uma amiga, da Itália, escreveu-me para contar que o apresentador da RAI iniciou o noticiário afirmando, entusiasmado: Allora possiamo dire che la guerra biologica Š incominciata! Outro amigo conta-me sobre um depoimento ouvido num debate pela TV a cabo: Nós, brasileiros, temos a mania de estar acima desses problemas, mas temos de nos preparar, agora, que o terror virá de todo lado. Acabaram-se os tempos de tranquilidade. O melhor é tomar desde já todas as precauções, agir como se já estivéssemos em guerra, porque já estamos. ''Você precisava ver'', disse-me, ''como os olhos do cara rutilavam''.
Uma outra anedota, conhecida dos estudantes de jornalismo, porque contada por um colega veterano: numa redação, de onde se viam aviões partindo e chegando no aeroporto, um dia, em que faltava assunto, um dos repórteres olhava pela janela e torcia: Cai, avião, cai.
Não se pode negar o efeito dominó - ou avalanche - da difusão da notícia. Mais do que a destruição imediata, o terrorista conta com a divulgação do seu ato. Quanto mais, melhor - e pior para nós, que não somos terroristas. Se é medonhamente complexo tramar um vôo suicida de um avião comercial, é assustadoramente simples - ao alcance de qualquer moleque alfabetizado - polvilhar de pó branco um cantinho do shopping center e telefonar, de um orelhão, aos bombeiros e à polícia.
Que fazer? A resposta não é simples como o fundamentalismo, nem rápida como a violência. Mas os profissionais de comunicação, temos de procurá-la tenazmente. Sobretudo agora, para não sermos parceiros no jogo do terrorismo mundial.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é jornalista, publicitário, professor e dirigente de instituição universitária no Rio de Janeiro

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