O jogo do pisca
Primeiro, o PFL brincou de pisca com o PMDB. Em fevereiro do ano passado, insatisfeito por perder poder no Senado, o partido engendrou uma briga sem volta com os peemedebistas. Exigiu que Jader Barbalho (PMDB-PA) desistisse de concorrer à Presidência do Senado. O PMDB não piscou e o PFL usou todas as armas. Jader caiu pelas suspeitas que pairavam sobre seu patrimônio e por causa da relação estreita com a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam).
Mas o PFL também acabou piscando. Perdeu seu maior líder no Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), enroscado na curiosidade de conhecer os votos que cassaram o mandato do senador Luiz Estevão (PMDB-DF). O PFL, no entanto, julgou-se vitorioso porque atrapalhou o jogo do PMDB ao tirar Jader do Congresso.
Na época, quem ganhou com essa história foi o PSDB. Elegeu Aécio Neves presidente da Câmara e deflagrou uma aliança que hoje tem em José Serra seu candidato a presidente, com o apoio do PMDB. O PFL não gosta de Serra. Por isso, vem de novo com o jogo do pisca contra o PSDB, o governo e seu candidato.
O PSDB ainda não piscou. Não trocou de candidato e se aproximou do PMDB. Serra subiu. Está com 20% nas pesquisas. Por isso, o PFL sacou as armas de que dispõe: os 96 votos na Câmara e o discurso de que Serra é inviável eleitoralmente. Mas o PSDB prossegue firme, dizendo que um candidato com 20% e apoio de Fernando Henrique Cardoso não pode ser desprezado.
Enquanto isso, as pálpebras do PFL começam a pesar. Pegou mal a ex-governadora do Maranhão Roseana Sarney nomear seu marido Jorge Murad secretário extraordinário do governo maranhense pouco antes de deixar o cargo. Murad é o mesmo que há menos de um mês assumiu ter arrecadado dinheiro de forma irregular, sem o conhecimento dela. E agora foi premiado.
A nomeação soou estranha para quem é do baixo clero pefelista. Por isso, o fim da candidatura é comentado no tititi do vale de los caídos, apelido daquele fundo escurinho do plenário da Câmara, uma espécie de muro das lamentações de políticos em dificuldade.
Em meio às lamentações, o PFL continua lutando para acabar com Serra. Ameaça seguir com Ciro Gomes (PPS) ou ficar neutro, se o segundo turno da eleição for entre Serra e Lula, do PT. O ódio é o conselheiro dos pefelistas hoje. Em 2001, o jogo do pisca do PFL deu PSDB.
Agora, pode dar PT. Afinal, enquanto dois ficam frente a frente, lutando para ver quem pisca primeiro, um terceiro leva o prato de brigadeiro da festinha.
DENISE ROTHENBURG é jornalista em Brasília





