O jogo das tarifas americanas nas relações comerciais com o Brasil
No mundo globalizado, usar a imposição de tarifas para vencer na disputa econômica equivale a jogar o dilema do prisioneiro
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 11 de agosto de 2025
No mundo globalizado, usar a imposição de tarifas para vencer na disputa econômica equivale a jogar o dilema do prisioneiro
Vitória Altfuldisck Soares 
Com o aumento da instabilidade das relações internacionais, está havendo a ressurgência de um protecionismo tarifário exorbitante por grandes economias, usando a justificativa de proteção do mercado interno. Recentemente, esse efeito tem migrado para as fronteiras brasileiras com a imposição do presidente Trump de uma tarifa de 50% sobre os produtos nacionais.
Com efeito, ao analisarmos a situação como uma formação de jogos é possível perceber que, na verdade, tarifas altas (ao contrário do que apresentado nos discursos nacionalistas) tendem a gerar menor cooperação, causando retaliação entre os países e, consequentemente, gerando prejuízos coletivos para ambos os lados.
Em um mundo globalizado, usar a imposição de tarifas para “vencer na disputa econômica”, equivale a jogar o dilema do prisioneiro, ou seja, a busca por satisfazer os interesses próprios leva a ignorar um possível cenário pior para todos os envolvidos no futuro. O país afetado por essas medidas, pode vir a retaliar na mesma mediada, gerando um conflito de soma negativa para ambas as partes.
Foi possível visualizar isso durante a guerra tarifária entre os Estados Unidos e a China entre os anos de 2018 e 2020 (e mais recentemente em 2025), quando os EUA impuseram tarifas bilionárias a produtos chineses, alegando práticas desleais e o gigante asiático atacou na mesma moeda. A cada nova tarifa imposta causava uma reação proporcional, afetando a produtividades desses países e, dessa forma, aumentando as incertezas e influenciando negativamente nos preços no comércio global.
Esse tipo de estratégia, a busca por meio de uma ação agressiva e voltada para o imediato com o intuito de agradar uma agenda política, tende a se perpetuar quando não há contramedidas institucionais claras, sufocando táticas de cooperação que visam a estabilidade em longo prazo. Para o caso brasileiro, o efeito se dá, essencialmente, nos setores chaves da economia, em especial, no agronegócio, uma vez que a tarifa americana afeta diretamente as commodities com uma tendência de perdas anuais em U$ 17 bilhões anuais.
Olhando pelo lado dos EUA, o efeito pode ser muito pequeno, uma vez que o Brasil representa apenas 1.3% das importações americanas (12% para o caso brasileiro). Para o Brasil, apesar de serem visíveis os danos à economia, é possível gerar um estreitamento forte no fluxo comercial brasileiro com a China e favorecer a economia chinesa na batalha que vem sendo travada com os EUA desde o começo do ano.
Neste caso, a lógica pelo uso de tarifas elevadas é, em sua essência, uma necessidade de ganho imediato ao custo do futuro, que despresa o efeito rebote que pode causar malefícios para aquele país que as impõe. Ao se impor tarifas para “vencer” uma disputa, é ignorado que a economia global é uma interação de ganhos compartilhados, ou seja, é fundamental que se tenha colaboração para que todos possam triunfar.
Para o caso em questão, o maior estreitamento com a economia brasileira beneficiaria os EUA na guerra comercial com a China, contudo, parece que esse não será o cenário. Dessa forma, os jogos formados mostram que as ações individuais mal coordenadas podem levar a equilíbrios desastrosos e, com isso, comprovar-se-á que a imposição de tarifas unilaterais são sintomas de desconfiança e sua perpetuação destrói com a união internacional, fazendo com que o grande desafio das nações seja jogar para continuar jogando, em vez de atuarem para vencerem sozinhas, preservando a confiança, a previsibilidade e os canais de negociação, reforçando as suas capacidades de enforcement.
João Gabriel de Araujo Oliveira, doutor em economia (Universidade de Brasília), professor adjunto I, Ibmec-DF, professor visitante do PPE da Universidade Estadual de Londrina e consultor macro do Banco Mundial.
Vitória Altfuldisck Soares – pesquisadora assistente do Grupo de Estudos em América Latina e Estudante de Economia, Ibmec-DF


