O irreal universo da especulação - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de novembro de 1997
Walmor Maccarini 
O homem inventou as Bolsas de Valores mas parece ainda não haver entendido que elas oscilam, e que se hoje caem, sobem amanhã. É por isso que estes mini-crashs das Bolsas, que agora acontecem, causam tanto alvoroço. No caso do Brasil, vê-se que o governo, bancos e empresários, ainda não absorveram essa verdade do mercado de ações. E que também não se livraram do vírus inflacionário, como alguém que tenha perdido a mão mas ainda sente dores na ponta dos dedos. Porque enquanto a inflação veio baixando, até chegar ao patamar de agora, de menos de meio por cento, os bancos, instituições financeiras, fornecedores e lojistas não se apressaram nem um pouco em granjear otimismo nem em baixar suas taxas de juros, mas bastou uma oportunidade como agora - a queda episódica dos negócios nas Bolsas - para todos vislumbrarem o caos e mexerem bem depressa, e para cima, nos seus percentuais. Começando pelos bancos, que já promoveram altas nos juros do cheque especial, do cartão de crédito, do leasing e dos financiamentos. E o Governo, que financia a casa própria do pobre (e desempregado às vezes), nesta hora não pensa na tão obcecada salvaguarda do Real e não pergunta de onde o assalariado do mínimo imexível de R$ 120 vai tirar. O mesmo estão fazendo as revendas de automóveis e os lojistas, já decididos a aumentar as taxas de juros nas vendas a prazo. Certamente vão se estrepar lá adiante, porque o freguês se retrai e a mercadoria sobra nas prateleiras e vitrinas. Na extensão, todos perdem, porque a quebradeira e o desemprego serão apenas naturais consequências.
Neste caso é preciso que esses cabeçudos quebrem, para dar lugar a empresários mais inteligentes.
Com toda certeza os banqueiros e lojistas japoneses, europeus e norte-americanos - vítimas do mesmo efeito global do crack-traque de Hong Kong - não estão a esta altura aumentando com tanta euforia os seus juros. Não foi uma catástrofe mundial que aconteceu, como uma bomba atômica, um terremoto que houvesse engolido um país inteiro, ou uma tempestade que tivesse destruído a safra agrícola de meio mundo. Foi apenas uma oscilação no mercado especulador das ações.
Oscilações de Bolsas são como ventos do minuano: sopram quatro dias e depois cessam. Nem derrubam telhados e nem destróem plantações. Apenas assoviam fortes e jogam muito cisco em nossos olhos.
Ninguém quebra impunemente. Não é preciso acreditar em maldição para perceber que tudo o que o homem vem colhendo, tem semeado. E também não é preciso ser profeta do apocalipse para vaticinar que estas altas inconsequentes de juros, agora, vão gerar mais estragos lá adiante. Porque aumentos dos juros do cheque especial, de financiamentos e vendas a prazo, vão gerar retração no uso do dinheiro e nas compras, por consequência gerando desemprego, menos poder de aquisição e por extensão mais quebradeira, na esteira menos recolhimento de impostos, cofres públicos mais vazios e com isto menos obras, queda da qualidade de vida, e por aí vai.
O homem tradicional brasileiro que lida com dinheiro e negócios é cabeça dura demais, salvando-se alguns segmentos heróicos, como a agricultura, que não tem como especular com sua produção. Ele ainda não detectou o pulsar da freguesia. Esta sim está ficando esperta.
Se esses homens que produzem e vendem usassem mais a inteligência, começariam já agora, na crista do crash das Bolsas, uma campanha de baixa de preços e dos juros nas vendas a prazo. Algo invertido que surpreendesse os sábios da comunidade econômica dos altiplanos brasilienses. E os bancos, se for de sua vontade, que façam o mesmo ou contentem-se com os riscos daí decorrentes, como o de serem engolidos um pelo outro. No mundo, já floresceram impérios sem bancos. Os negócios se sustentam sem os bancos mas estes não prevalecem sem eles. As empresas se garantem sem as Bolsas mas estas não sobrevivem sem elas. Por que, então, a vida dos cidadãos haverá de se deixar influenciar por essas oscilações esporádicas nas Bolsas de Valores?! Tudo isto é algo muito neurótico, irreal, especulativo, psicológico. Vale mais saber se o pão é bom e barato e está vendendo bem, e com lucratividade, do que a quanto está cotada a ação da padaria... Noventa por cento, ou mais, das empresas do mundo, não têm ações próprias nas Bolsas nem dependem das ações das 10% restantes. Bolsas não são referenciais de nada. Apenas um mercado informal de ilusões.
E o Governo brasileiro, com essa paranóia de salvaguardar o Real, está protegendo mais o remédio que o paciente. A verdade é que o mercado de papéis é algo instável como areia movediça. Não é o oscilar das ações nas Bolsas que define a saúde das empresas, mas a saúde das empresas dará qualidade à saúde das ações.
Bolsas, na verdade, não têm o poder de alterar nada no mundo dos negócios.
Mas se acreditarmos que há um jacaré em baixo de nossa cama não colocaremos os pés no chão e morreremos de inanição. Por culpa do jacaré. Que passa a ser real na medida que o fazemos real.


