O inverno de nossas desesperanças - Gaudêncio Torquato
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de julho de 1998
Gaudêncio Torquato 
A sociedade brasileira está mais atenta ao processo político, dá sinais de que não pretende antecipar a sua decisão, mostra-se aborrecida com o desempenho do governo em relação aos problemas sociais e canaliza energias no eixo de um sentimento oposicionista que, de modo concêntrico, se alastra por todo o País, saindo dos centros urbanos para o interior. É o que se lê nas pesquisas de intenção de voto que tanto frisson têm causado, principalmente quando mostram paralelismo entre os dois principais candidatos. Nada está decidido. A reeleição do presidente e a de governadores, que parecia muito fácil há um ano, esbarra no fator social. A segurança da estabilidade econômica está ameaçada pelo adensamento das tensões.
Não há como deixar de se registrar certa amargura e uma dose acentuada de frustração, em todos os ambientes. A presença do Brasil na Copa consegue afastar os males, cobrindo o País com um manto diversional-catártico. Mas a Copa é um agasalho no inverno das desesperanças nacionais. O argumento de que é preciso, antes, sanear as contas para se investir na área social, não comove. Nem mesmo chega às massas. A banalização da política e a multiplicação de seus arabescos - discursos repetitivos, promessas, favorecimentos - amortecem a densidade ideológica da luta política, tornando amorfos os programas dos candidatos. Os cinco dedos de Fernando Henrique formam um ícone envergonhado.
O esforço para se buscar significações novas perde-se no poço da descrença. A cosmetização de Lula, com fatiotas bem cortadas e discurso mais aparado e menos radical, é borrada pelas extravagâncias jurássicas de Brizola. Ademais, o PT continua sem um projeto grande e claro para o País. Continua no diagnóstico.
A alternativa Ciro Gomes vingaria caso o quadro social se agravasse e a polarização entre FHC e Lula entrasse na tubulação da mesmice. Ciro, porém, transita entre o ser e não ser: tucano, mas não muito, radical-pela metade, chulo-ocasional.
A bomba atômica que Enéas quer construir, como presidente, é a extensão de uma logotipia canhestra, que complementa a careca, a barba, a fala apressada e a imagem de 5 milhões de brasileiros dispostos a pagar para morar no parque dos dinossauros.
Como não há novidade capaz de criar ondas cívicas de entusiasmo, o negócio é se refugiar no ludismo da Copa, buscar as emoções das novelas de TV, apupar no circo dos programas de auditório e aplaudir os xingamentos em cena aberta, chorar os heróis fincados no coração do povo - artistas das canções e da alma - que desaparecem quase de repente. Enchem-se os templos evangélicos, cujo balão começa a despertar a cobiça de candidatos, e energizam-se os grupos carismáticos, que ressuscitam a liturgia mística das tradições mais remotas do catolicismo.
Floresce, nesses momentos de crise social, tinturados pelas cores do desemprego, da violência, das doenças e da depressão, o profundo sentimento religioso do povo, como se ele fosse o bastião contra as intempéries. Os bares das periferias também se enchem e aí o rito litúrgico é a cachaça e a cervejinha. Além dos frequentadores tradicionais, nos últimos tempos passaram a abrigar também desempregados, que procuram recompensa para a amargura.
Corre nas veias dos cidadãos o sangue do medo. Por onde se ande, ouvem-se metáforas de insegurança, que se projetam no medo de perder o emprego. Uma cultura de contrariedade se desenvolve, colando-se o crítico quadro social aos governantes. A farta propaganda, com mensagens grandiloquentes e auto-elogiosas, não consegue amenizar a imagem dos políticos. Dessa forma, cresce a taxa de racionalidade do eleitor. Ver para crer. Esse parece ser o lema do momento.
Tudo isso explica a situação de igualdade entre os candidatos. Um voto-purgatório coloca quase todos no limbo, onde passarão um tempinho até a purgação dos pecados. O voto-paraíso será concedido aos que melhor conseguirem esquentar as crenças e fazer voltar as esperanças nesse inverno de tanta desolação.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos).
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