O início da glória
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terça-feira, 04 de fevereiro de 2003
Moisés de Godoy 
Com a recente ascensão ao superior poder da República, Luís Inácio, legalizado como Lula, avizinham-se tempos de glória que o exercício do mandato vai pô-los à prova.
Começo de mandato não tem outra moldura. É tudo carraspanagem e boemia, e analistas na matéria são unânimes em referendar que, neste momento, adesistas e oportunistas de undécima hora que agora se pavoneiam no cenário proclamam que ''serviram à causa, juram fidelidade ao novo ídolo'' e não se cansam de empunhar a bandeira de uma solidariedade que floreceu só depois do 27 de outubro.
Conta a história que, logo após a Revolução de 30, os novos ''amigos'' do Caudilho eram reconhecidos por vivamente usarem lenços vermelhos em torno do pescoço, todavia bem maiores que os dos verdadeiros seguidores de Getúlio Vargas. Exageravam no ''lenço'', e no ''laço''.
Lindolfo Collor, em seu livro ''Europa 39'', já no exílio, narra que, nos alvores de 33, quando Hitler fazia drapejar a bandeira da suástica lendária, tornou-se moda e religião o enaltecerem-lhe, e, ao nazismo, acrescentarem qualidades destoantes dos níveis de moderação e o mesmo vem de ocorrer neste instante em que o PT, inadvertidamente, cede ou permite aos apupos irracionais de uma coletividade, que vê no novo chefe um ídolo ímpar, a ponto de, numa pieguice das mais reprováveis, se pretender até dar-lhe a homenagem de realizarem um filme sobre sua vida.
Méritos não lhe faltam, na verdade, mas a homenagem ao vencedor está sendo exacerbada e parece que a ''biografia'' do presidente eleito ganha traços pomposos que lhe causarão ''surpresa'', na feliz expressão de Jarbas Passarinho, em recente artigo.
O culto ao poder, a idolatria da personalidade, a politicocentria do mandatário não podem se exceder, exatamente porque o humano tem dimensões comuns (o que é humano não me é estranho, afirmava Plotino) que, hiperamplificadas, se traduzem em absoluta irrealidade e a prudência, no caso, recomenda pudor e discrição e o partido se deve acautelar e não permitir que a ressaca das eleições venha se transformar em verdadeira náusea.
O próprio Lula deve riscar de seu programa a avalanche de uma apoteose que, embora legítima, deságue num mar de histeria coletiva, imatura e inconveniente e de modo que, em ritmo de seriedade, não deixe desfigurar e nem comprometer sua verdadeira identidade pessoal e política. Há estudos atuais sobre os governos populistas, dos quais a cobrança é intermitente e o reconhecimento posterior tem vestes rudimentares de franciscano.
Que os anos que se prometem de glória não resvalem para o vazio e que o partido cerceie manifestações desse gênero que o bom-senso repele com energia.
MOISÉS DE GODOY é advogado em Londrina e especialista em História Política e da Filosofia no Brasil


