As opiniões divergem sobre a participação dos padres na política como ocupantes de cargos eletivos ou exercendo outras funções governamentais. Os que são contra argumentam que os religiosos devem ocupar-se tão-somente do seu mister, que é a evangelização. Os que são favoráveis demonstram que a Igreja Católica desde muito tempo se ocupa também dos problemas temporais da sociedade, e que a atividade política nos parlamentos e outros postos é apenas mais um desempenho coerente com aquela posição. A questão foi posta ontem, em entrevista a este Jornal, pelo arcebispo da diocese de Cascavel, dom Mauro Aparecido dos Santos. Ele figura entre os contrários, e proibiu que os padres sob sua jurisdição se inscrevam em partidos e concorram.
Dom Mauro assumiu a diocese há um mês e de pronto tomou a medida, porque este é um ano eleitoral e já se começa a articular as convenções partidárias que indicarão os candidatos. O arcebispo não só não quer padres disputando eleições como proíbe a participação deles na administração pública. Há punições severas para os desobedientes: serão suspensos das funções sacerdotais e perderão o direito a seus ganhos e benefícios, à moradia, telefone, veículos e planos de saúde. Um desejo posterior de retorno ao sacerdócio implicará em várias exigências, incluindo um reestudo do Código de Direito Canônico, da História da Igreja, da Espiritualidade e da Escatologia. (Esta última é a doutrina do destino último do homem, como a morte, a ressurreição e o juízo final segundo o entendimento católico). A justificativa do arcebispo é que a vida pública atrapalha a atividade eclesial se quem se decidir pela política eletiva deseje continuar na pregação e na celebração dos ritos religiosos.
Mas - e esta é uma postura que deve receber a concordância de todos os fiéis católicos e da comunidade em geral - o titular da diocese de Cascavel diz que a Igreja em sua área vai incentivar os leigos a participarem da campanha nos municípios de sua abrangência (17) e fará um trabalho de orientação nas eleições de outubro. É a Igreja na campanha eleitoral, indo além do discurso genérico mas citando os que, no seu entender, serão os bons e os maus candidatos. O requisito fundamental é a comprovada honestidade.
Pelo poder católico no Brasil, essa orientação será de grande valia e precisaria ser seguida em todas as dioceses, porque a Igreja Católica, assim como as demais denominações religiosas, constituem representatividades do povo. Se aquele arcebispo é contrário a um detalhe da participação política - que é a candidatura de seus membros - será muito importante seu papel de orientadora, num momento histórico de tanta corrupção e desmandos na vida pública brasileira.

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