Privatizações mal conduzidas, falhas no imprescindível diálogo entre governo e setor produtivo, falta de políticas setoriais para segmentos estratégicos da economia. A combinação desses fatores levou o Brasil, na última década, a montar gradualmente o cenário que está hoje diante de nós: crise energética com sérios riscos de racionamento e, consequentemente, ameaça de desaquecimento da economia e de fuga de investimentos estrangeiros. Não adianta culpar São Pedro. Se o rumo escolhido tivesse sido outro, poderíamos estar em situação muito melhor e há exemplos eloquentes na história econômica mundial para provar isso.
Antes de 5 de dezembro de 1791, quando Alexander Hamilton apresentou seu insuperável ''Relatório sobre as Manufaturas'' na Câmara de Deputados dos Estados Unidos, o ''pensamento único'' então dominante na economia estabelecia que o governo não deveria definir rumos para a indústria. O setor produtivo deveria ser deixado em completa liberdade, pois que de forma inevitável encontraria o seu próprio caminho para a prosperidade.
A essa postura se opôs Hamilton, através de sua lúcida e profunda análise sobre mercados globalizados e sistemas produtivos internacionais, válida ainda hoje. Ele reconhecia que o temor de fracassar em áreas ainda não exploradas e a consciência das dificuldades de competir com adversários mais experientes, e muitas vezes protegidos por estímulos governamentais, tudo isso constituía forte fator inibitório ao desenvolvimento de iniciativas locais, barreiras que somente poderiam ser ultrapassadas com a forte presença e apoio do Estado.
Embora a teoria, tão cara aos economistas da Escola de Chicago, diga que medidas que obstaculizem a livre circulação de artigos estrangeiros tendem a elevar os preços no mercado doméstico, isso pode ocorrer num primeiro momento, mas a médio prazo os efeitos são opostos. O estabelecimento de manufaturas locais cria a própria competição interna, eliminando possibilidades de abusos de mercado pelo exercício de monopólios estes sim, mais facilmente encontrados no comércio internacional, onde é menor o número de global players.
A diversificação da pauta produtiva interna, além de sua importância em termos de geração de renda e criação de emprego, tem valor estratégico para uma nação, especialmente quando se trata de produtos mais sensíveis, como medicamentos para a população ou, como já registrava Hamilton, quando é preciso compensar variações sazonais nos preços internacionais das mercadorias, como é o caso de agroquímicos.
O capital externo, ainda na visão de Hamilton, constitui valiosíssimo instrumento de política industrial quando aplicado diretamente na indústria ou em financiamentos, mas constitui um complemento aos recursos internos que precisam ser mobilizados. No ''First Report on Public Credit'', apresentado em 14 de janeiro de 1790, o efeito da dívida interna consolidada foi apresentado como uma espécie de capital nacional. Embora essa dívida não represente efetivamente um aumento absoluto do capital, ao impulsionar a produção ela propicia o aumento da riqueza real de uma comunidade. Obviamente hoje se dispõe de um elenco muito mais sofisticado de alternativas para a captação da poupança nacional, infelizmente usado ainda de forma tímida no Brasil.
A necessidade de uma política industrial é magistralmente mencionada por Hamilton quando afirma que ''não somente a riqueza, mas a independência e a segurança de um país estão intimamente relacionados à prosperidade de suas manufaturas. Toda nação que pretenda atingir esses elevados objetivos deve possuir o essencial para o abastecimento nacional. Aí se incluem meios de sustentação, habitação, vestimenta e defesa. A falta de qualquer um deles significa a carência de um importante órgão de vida e movimento político e, nas diversas crises que afetam o Estado, este sentirá profundamente os efeitos de tal deficiência''.
O impasse desenvolvimentista de hoje, no Brasil, reside na ausência de uma política industrial, como definida por Hamilton conceito cuja aplicação nos Estados Unidos, dois séculos atrás, resultou na potência em que esta grande nação veio a se transformar.


- NELSON BRASIL DE OLIVEIRA é empresário e vice-presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina (Abifina), no Rio de Janeiro

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