Luiz Geraldo MazzaO imobilismo
de conveniência
Tenho por hábito fazer um trocadilho entre palavras nada sinônimas, mas de certa forma com afinidades semânticas: a conveniência está, às vezes, bem próxima da conivência. É conveniente, por exemplo, aos governantes safar a sua cara na questão das invasões de terras para se mostrarem progressistas ou empenhados em parecer ‘‘politicamente corretos’’, conforme a moda. Nesse caso a conveniência leva à conivência.
Mas não é só nesses casos até porque eles, por sua origem social, quase sempre dissimulam a realidade porque traduzem mais um movimento político, e no sentido estrito do partidarismo, do que social. O próprio PT, que seria o suposto beneficiário nessa reacumulação de energias, hoje ganhando outros campos para a defesa de faixas excluídas e não organizadas, vive uma tremenda contradição no processo: é que esse tipo de aliança e de atuação afasta aliados importantes no espectro ideológico à direita e ao centro e mesmo na chamada esquerda moderada.
Como um Hamlet, menos metafísico do que o de Shakespeare, seguramente porém ambivalente, Lula declama o ‘‘ser ou não ser’’ da política de alianças, sem a qual não tem a menor possibilidade de sequer aproximar-se de FHC (e o seu ganho em pesquisas o demonstra), que acaba contaminada pela desconfiança e o temor das ações radicais, característica da esmagadora maioria da população brasileira e, especialmente, dos mais pobres. Aí no caso de Lula convergem a conivência com a conveniência, mas não se sabe até quando porque pode haver, de um momento para outro, como se deu no lamentável circo de Brasil, a perda de controles da situação.
Também FHC como Lerner, no caso específico das invasões, porque aqui e especialmente no Noroeste há o maior número delas, agem dessa forma. O temor reverencial de episódios como o de Corumbiara e de Eldorado de Carajás permeia a visão que se guarda dessas tensões quando chegam ao confronto. E já tivemos aqui, além da tragédia de Campo Bonito, hoje reaberta na Justiça, em que morreram três PMs e o líder sem-terra Teixeirinha no governo Requião, fatos recentes como o da invasão das agências do Banestado revelam esse receio quase paranóico, tal a tolerância da polícia diante de um ato demagógico e primário (no qual se incluiu até a idiotice do combate à privatização) e que só anima as áreas mais selvagens a uma postura cada vez mais arrogante como a ousadia delinquente em dar prazos ao governo como se este fosse a anti-lei.
O fato é que isso imobiliza a autoridade e confere aos que a desafiam um poder artificial de mobilização e de força. A segurança tem a delicadeza de uma casca de ovo e a qualquer momento pode ser rompida e aí não haverá mais como acomodar, botar panos quentes, na situação. E então se descobrirá, como a história seguidamente o demonstra, que os que rompem a linha mínima da ordem jurídica alimentam a reação potencializada e o germe da ditadura. Que aliás já está incubada na raiz desses movimentos, mesmo quando aureolados por uma causa justa e humana que no processo é deturpada.GLOSA
Se os ladrões já estiveram nos postos bancários do Legislativo e do Judiciário e agora da Prefeitura, percebe-se logo que no auge da privatização o que mais atrai a bandidagem é o setor público: quase sempre de dentro para fora e, às vezes, de fora para dentro.
AXIOMA A figura marcante de um acontecimento histórico, o doutor Zequinha dando uma pelotada de estilingue num PM ou aquele chinês que segurou o tanque na Praça da Paz Celestial, quando sobrevive é uma estátua que anda. Como o Fantasma Voador, aquele da história em quadrinhos, é, ainda e eternamente, o ‘‘espírito que anda.’
BIZARRICE Consta, imaginem a ousadia, que o Vernon Walters, o homem da CIA, teria participado no Rio de Janeiro da ‘‘passeata dos 100 mil’’ no meio dos manifestantes e sem disfarce. Essa é uma versão de militares ligados à ‘‘Redentora’’ e daqueles que olhavam com ‘‘fair play’’ o caráter festivo das manifestações de 68 e ora tão decantadas pelo trigésimo aniversário. Curioso é que o lema chave do agito mandava não confiar em quem tivesse mais de 30 anos.
SPRAY Dona Fani Lerner disse esperar poder colocar todas as crianças de rua e fora da escola antes dos 500 anos da descoberta do Brasil, abril 1999.- É um desejo que pode se tornar inviável na continuidade das migrações: calcula-se que além dos 400 mil que vieram para a Grande Curitiba de 92 a 96 só agora, com o anúncio das montadoras, teria havido um afluxo de 50 mil.- Outra coisa: mesmo iniciativas bem boladas como essa ou o das Vilas Rurais corre o risco de acidentes de percurso. Em Apucarana consta que gente da cidade estaria comprando direitos nas vilas, tal qual acontece nas invasões e assentamentos.- Itapoá, como outros balneários catarinenses, tem maioria de paranaenses, razão pela qual houve a comemoração da prefeitura relativamente aos primeiros cinco quilômetros inaugurados, feito excepcional e que já não precisa de exageros de dramatização como aquela estória de fazer plebiscito para integrar-se ao Paraná.- Por sinal que já sofremos no extremo norte litorâneo, um risco mais ou menos semelhante quando os moradores de Ararapira, Guaraqueçaba, pretenderam passar para o lado paulista por causa das estradas.-
REFLEXÃO ‘‘Eu não me atreveria a citar seis romancistas americanos capazes de reconhecer uma fuga sem embatucar. Ou seis poetas capazes de um razoável arrazoado sobre as diferenças entre uma catedral gótica e um posto da Standard Oil.’ Novamente Mencken, agora sobre o conhecimento generalizado das artes, ele que foi um crítico excepcional da especialidade.
FOLCLORE Num ônibus biarticulado, esta semana, um grupo de norteamericanos visitava Curitiba ciceroneado por funcionários da Urbs. A hora era mais do que conveniente: meio de tarde quando não há ‘‘pico’’ e engarrafamento. Mas havia alguns petistas no pedaço e um, que falava inglês, começou a desfazer todo o discurso chapa-branca. Se em cada biarticulado houver três petistas certamente não vão ganhar e nem provavelmente aumentar a sua representação parlamentar, mas que vão urinar no chope dos festeiros ninguém pode duvidar.
CROMO Como cerzir a fiação da malha social: essa obra é pra rendeira ou pega melhor o jeitão de um sociólogo?
AFORÍSTICO Só falta agora um gaiato, dentre os mais ousados grafiteiros, colocar a mensagem no totem: vim, vi e venci. E assinar ‘‘César’’.

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