O imenso mapa da pobreza
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de dezembro de 2002
Rubens Bueno 
A meio do bombardeio eleitoral, o senhor Fernando Henrique veio a público para contestar os dados apresentados pelos diversos candidatos no tocante ao número de miseráveis no país. Ele insistiu em que os dados oficiais contradiziam os anunciados nos palanques, porque, antes de mais nada, se esqueciam todos de acrescentar às rendas ditas familiares aquilo que essas mesmas famílias recebiam pelos diversos programas sociais existentes, fosse na área federal, na estadual ou na municipal. Coisas como bolsa-escola, cesta básica, tíquete-botijão de gás, etc.
Preocupados com os comícios, as carreatas e os deslocamentos pelo país, ninguém se animou em desmentir o senhor presidente. Isto, no entanto, acaba de ser feito. E exatamente por uma entidade oficial, o IBGE. Os números apresentados pelo instituto, colhidos pela PNAD, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, são acachapantes. São 49 milhões de pessoas que vivem com até meio salário mínimo per capita, isto é, com até R$ 100,00. Mas se a esse grupo juntarmos os cidadãos sem qualquer rendimento, chegaremos a 54 milhões. É um contingente imenso, dele constando, como agravante, 5 milhões de pessoas que nada recebem a cada mês.
Isto representa mais que a população da Colômbia, de 40 milhões de habitantes. Mas, como todos os dados estatísticos, neutros em sua expressão numérica, podem ser utilizados segundo os interesses de quem deles se vale para defender suas teses.
E isto porque, em 1992, o total de pobres representava 38% da população e, agora, apenas 32%. Sucede que nesse período o crescimento populacional andou cercando os 20%. De qualquer maneira, seja qual for o posicionamento diante do quadro, é de convir-se que a 10 maior economia industrial do mundo, a nossa, não pode seguir convivendo com 54 milhões de miseráveis, porque somente pode ser miserável quem se vê obrigado a sustentar-se com R$ 100/mês, diante de uma cesta básica que já beira os R$ 200,00.
Aí está a tarefa prioritária do novo governo: o combate efetivo à miséria. E dizemos efetivo porque, criado, por exemplo, o Fundo de Combate à Pobreza no ano de 2000, e regularizado em 2001, somente pôde esse fundo ter suas verbas orçadas no atual exercício. Pois bem, dos cerca de 4 bilhões e duzentos milhões de reais destinados ao combate à fome, apenas 39% do total vieram a ser utilizados pelo governo do senhor Fernando Henrique até meados de outubro, seja, quase ao final do ano. E isto, diante de tanta miséria, de uma miséria pesquisada e encontrada pelo próprio governo, é, sem dúvida, criminoso.
RUBENS BUENO é deputado federal e presidente do PPS-PR


