O imenso mapa da pobreza
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 20 de dezembro de 2002
Rubens Bueno 
A meio do bombardeio eleitoral, o Sr. Fernando Henrique veio a público para contestar os dados apresentados pelos diversos candidatos no tocante ao número de miseráveis no País. Ele insistiu em que os dados oficiais contradiziam os anunciados nos palanques, porque, antes de mais nada, se esqueciam todos de acrescentar às rendas ditas familiares aquilo que essas mesmas famílias recebiam pelos diversos programas sociais existentes, fosse na área federal, na estadual ou na municipal. Coisas como bolsa-escola, cesta básica, tíquete-bujão de gás, etc.
Preocupados com os comícios, as carreatas e os deslocamentos pelo país, ninguém se animou em desmentir o Sr. Presidente. Isto, no entanto, acaba de ser feito. E exatamente por uma entidade oficial, o IBGE. Os números apresentados por aquele Instituto colhidos pela PNAD, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, são, para dizer o mínimo, acachapantes. São 49 milhões de pessoas que vivem com até meio salário mínimo per capita, com até 100 reais. Mas se a esse grupamento juntarmos os cidadãos sem qualquer rendimento, chegaremos a 54 milhões. É um contingente imenso, dele constando, como agravante, 5 milhões de pessoas que nada recebem a cada mês, vivendo exatamente de quê?
Isto representa mais que a população da Colômbia, de 40 milhões de habitantes. Mas, como todos os dados estatísticos, neutros em sua expressão numérica, podem ser utilizados segundo os interesses de quem deles se vale para defender suas teses. E isto porque, em 1992, esse total de pobres representava 38% da população e, agora, apenas 32%. Sucede que nesse período o crescimento populacional andou cercando os 20%. De qualquer maneira, seja qual for o posicionamento diante do quadro, é de convir-se que a décima maior economia industrial do mundo, a nossa, não pode seguir convivendo com 54 milhões de miseráveis, porque somente pode ser miserável quem se vê obrigado a sustentar-se com 100 reais/mês, diante de uma cesta básica que já beira os 200 reais.
Aí está a tarefa prioritária do novo Governo: o combate efetivo à miséria. E dizemos efetivo porque, criado, por exemplo, o Fundo de Combate à Pobreza no ano de 2000, e regularizado em 2001, somente pôde esse fundo ter suas verbas orçadas no atual exercício. Pois bem, dos cerca de R$4,2 bilhões destinados ao combate à fome, apenas 39% do total vieram a ser utilizados pelo governo do Sr. Fernando Henrique até meados de outubro, quase ao final do ano. E isto, diante de tanta miséria de uma miséria pesquisada e encontrada pelo próprio Governo, é, sem dúvida, criminoso.
RUBENS BUENO é deputado federal


