O imaginário político
Raramente há uma oportunidade como a atual para se perceber a distância entre a ação concreta de partidos e pessoas diante do suposto ideário que os elege. Não se trata apenas da verificação óbvia do estelionato eleitoral visível no fato de que Lula foi eleito exatamente por ter condenado o que está fazendo. Dá a impressão que aprendeu a lição de Collor, afinal seu litigante na primeira derrota presidencial. Collor, num debate, sugeriu que Lula iria, se eleito, congelar os ativos bancários, o que ele, sim, faria no Poder.
Os valores que agitam uma campanha eleitoral, para a qual até filósofos são convocados para as artes do convencimento, mexem com questões profundas da democracia, da alternativa socialista, da prioridade do trabalho diante do capital, enfim a mesma arenga de sempre. Esses referenciais, comuns a todos os países, por vezes desprezam condições culturais muito específicas dos povos aos quais devem ser aplicados. Não me entra na cabeça que se possa imaginar o Zaire seja como uma economia de mercado ou um sistema socialista. Se para o Brasil é complicado, embora se trate de uma sociedade complexa, urbanizada, com indústrias e agricultura de ponta, imaginar uma saída socialista dá para calcular o quanto mais difícil seria nos Esteites ou em Burundi e Nigéria.
Irrita ao teórico e doutrinador fazer esse tipo de avaliação que o afasta das suas abstrações preferenciais para teses acadêmicas, posto que absolutamente inviáveis no plano prático. O PC do B, por exemplo, em ação transforma a sua simbologia, foice e martelo, em alegoria quase carnavalesca, retirando-lhe a expressão originária de luta revolucionária e superação do capitalismo. Em tempo de caça a bruxas, no entanto, como se viu nos anos de chumbo, essa alegoria passava a ter o significado original, revolucionário e, por isso, merecedor de todos os cuidados repressivos e causador de martírios.
Se no plano internacional e nacional esse ajuste entre o imaginário da política e o campo das ações concretas é quase inviabilizado, torna-se na área estadual e municipal ainda mais inconsistente, o que não impede o discurso dos mesmos pregadores de sempre. Uma das sinalizações irritantes, por exemplo, está no abuso da expressão ''povo''. Quando Waldyr Pugliesi era prefeito de Arapongas tudo o que fazia ou pensava fazer vinha com essa advertência. Tal se deu com Roberto Requião, na Prefeitura de Curitiba, ao atribuir a uma parte mínima da frota de ônibus que realmente havia sido comprada pelo Município a condição de ''pertencente ao povo''. Atualmente insiste, por exemplo, em afirmar que a Sanepar não é mais privatizada quando os acionistas privados, com boa parte do capital da empresa, ainda lá permanecem. Aí também a intenção de restabelecer a dimensão pública do Estado, válida e até em condições de contar com base doutrinária consistente, é um ideário distante porque em aberto conflito com o cenário existente.
Pesquisa recente no Brasil revelou que a maioria das pessoas, mais de 70%, deseja um Estado forte, planejador e provedor. Consequência de outra incompatibilidade: a da promessa de eficiência das privatizações que não levou ninguém ao paraíso, a não ser alguns empresários.





