O IBGE, de Caronte a Kafka
O IBGE, de Caronte a Kafka
Miguel Salomão
O que têm em comum o IBGE, Caronte e Kafka?
O IBGE é por todos conhecido. Já Caronte, não. E não adianta procurar no Aurélio, que Caronte não está lá. Lembro que o condutor da barca dos mortos da mitologia grega. Dá para imaginar a cena: no meio da neblina, Caronte, um remador envolto em um manto que só deixa entrever o rosto cadavérico e as mãos esqueléticas segurando o remo, conduz, em pé, por águas pantanosas, a canoa ocupada pelos condenados ao além.
Kafka já é mais popular. A sua citação neste artigo tem a ver com o personagem de O Processo, aquele cidadão honesto que é obrigado a percorrer repartições e mais repartições para se explicar sobre uma acusação nunca aclarada pelas suas próprias palavras de defesa. Ler o livro todo sem mergulhar na paranóia é o desafio maior que Kafka propõe em O Processo.
Mas, o que tem a ver o IBGE com a barca dos mortos e com o sofrimento kafkiano?
É simples. Vitimado pelo Plano Collor (PC), o IBGE não pôde realizar o Recenseamento Geral de 1990. Não havia dinheiro. Aguarda agora a chance do Recenseamento Geral de 2000 para refrescar o seu baú de dados. Nesse baú (uma espécie de barca de Caronte) repousam estatísticas mortas pela ação do tempo, que se tenta em vão reanimar. Mas não se reanimam mortos, senão pelo milagre da reprodução da vida, em que a criança substitui o velho, a brotação substitui a velha árvore, e o dado novo substitui a estatística ultrapassada.
Veja-se o caso das estatísticas do setor industrial. O IBGE todo mês divulga o desempenho dos Estados. E o Paraná aparece sempre como o último ou o penúltimo, todas as vezes com queda de atividade industrial. Os jornais do dia 14 estampam de novo a manchete: Indústria produz mais em nove regiões do País, mas o Paraná tem queda de 9,7%. Difícil de acreditar, para quem está testemunhando o crescimento diário de nosso pólo automotivo e conhece as amargas reclamações de Mário Covas contra nossa competência em atrair indústrias.
Mas, onde está o problema? Está numa tal de PIM-PF do IBGE. Não entendeu? Vamos lá. Trata-se da Pesquisa Industrial Mensal-Produção Física. Qual o seu ponto de partida para verificar se a indústria está produzindo mais? É o Censo Industrial de 1985, em que foram identificadas as indústrias que, naquela época (15 anos atrás!) respondiam por 50% da produção industrial do nosso Estado. Essas indústrias passaram a ser informantes da produção física e entre elas figurava, por exemplo, a Sid Informática, maior produtora de terminais eletrônicas em 1985, e hoje falida, navegando na barca de Caronte.
Como essa lista de 1985 não foi revista, nela não figuram as fábricas da Renault, da Audi, da Chrysler e mais 60 fornecedores diretos, como Tritec, Detroit Diesel, Renault Motores, Dana Corporation, Siemens, Bertrand Faure e a Cia. Siderúrgica Nacional. Resultado: a queda da produção física de terminais eletrônicos da falida Sid Informática é levada em conta, mas a produção e a exportação dos modernos veículos Renault, Audi e Chrysler não contam ponto.
Mais grave ainda, a pesquisa do IBGE além de acompanhar uma estrutura de produção que já não corresponde à atual indústria paranaense atualiza apenas a quantidade física e não a ponderação segundo o valor dos bens produzidos na composição do PIB setorial. Imagine-se que a produção física do setor madeireiro caia 50% e a produção de automóveis aumente apenas 10%. O valor perdido com a queda na produção de automóveis. Ou seja, o valor do produto industrial cresceria. Como na estatística do IBGE o que conta é a quantidade produzida e o valor histórico gerador do fator de ponderação, a distorção é inevitável. Além disso, a informação das fábricas do setor madeireiro é catalogada mas as das novas montadoras não. Dá para imaginar o tamanho da encrenca estatística para decidir sobre a melhor localização para seu empreendimento industrial. Vai comer gato por lebre.
O mesmo ocorre com a estatística da mortalidade infantil. Dados atualizados de nossa Secretaria de Saúde (indicando mortalidade de 20 por mil) são deixados de lado. O IBGE está preso a estimativas (método direto de contagem) baseadas na atualização de dados do censo demográfico antigo (já que o de 1990 não foi realizado) e espera resultado do Recenseamento Geral de 2000 para refrescar o seu baú de ossos estatísticas. Com isso, atribui-nos mortalidade infantil mais alta (cerca de 28 por mil) do que a realmente apurada em contagem direta, cujos dados são coletados pelos 399 municípios do Estado, inseridos nos sistemas oficiais de informação do Ministério da Saúde, e gerenciados por 22 Centros Regionais da Secretaria da Saúde.
A pergunta é inevitável: o que tem feito o autor destas linhas para corrigir o equívoco? Tal como o personagem kafkiano, tenho procurado o IBGE e, quanto mais procuro, mais estatísticas equivocadas continuam saindo. Ano passado, promovemos uma reunião entre os técnicos do IBGE, da Secretaria da Saúde e do Ipardes. Muita cordialidade, de lado a lado, mas restou uma pedra no caminho: só o novo Recenseamento Geral autorizará o IBGE a substituir sua base velha de dados por números mais reais. É a ditadura da prioridade burocrática.
Mas a paranóia de O Processo não acontecerá. Procurei o presidente do IBGE. Nosso primeiro encontro foi em uma reunião no Ministério do Planejamento em Brasília, depois falamos por telefone e lhe mandei por correio eletrônico, a seu pedido, toda a nossa argumentação sobre desempenho industrial e a mortalidade infantil no Paraná. Ele foi muito atencioso e prontificou-se a discutir o assunto com seus técnicos. Pedi-lhe que o IBGE emitisse um boletim ou uma nota oficial sobre o assunto, aclarando a limitação de sua base de dados estatísticos e registrando a existência de outras estatísticas, de responsabilidade dos Estados, que poderão ser confirmadas quando o resultado do recenseamento de 2000 estiver disponível.
Estou aguardando sua resposta e a prometida vinda a Curitiba, talvez em julho, para proferir palestra sobre o tema em um fórum de discussão aberto a todos os interessados. Aguardemos. Tenho a certeza de que o Dr. Sérgio Besserman Vianna, presidente do IBGE, não faltará ao compromisso de dar transparência a essa questão tão melindrosa para os Estados e, em particular, para o nosso. Até porque pude perceber, pela sua simpatia e inteligência, que ele não tem nenhuma vocação para pilotar a barca de Caronte.
- MIGUEL SALOMÃO é secretário de Estado de Planejamento e Coordenação Geral do Paraná





