Embora no mundo a direita seja de certa forma hegemônica, no Brasil, e de certa forma na América Latina, ela é satanizada, prova do nosso atraso cultural e de não se captar aquilo que o filósofo Norberto Bobbio especificou em sua obra ''Dextra, Sinistra'': a liberdade é o estandarte da direita e a igualdade o da esquerda. Tirando os tradicionais partidos de caracterização marxista, o que hoje não tem o apelo do passado, todos os demais de confissão trabalhista, socialista ou social democrata se dizem, de algum modo, à esquerda.
Isso é tanto verdade que o novo partido da moda é o PSD, a mesma sigla que Getúlio Vargas criou para representar os interesses do conservadorismo, mormente do campo, que absorvia mais de 80% da população, valendo-se porém da designação social-democrata para tirar-lhe qualquer sinal de reacionarismo e fez surgir o PTB para representar o nascente proletariado urbano e defrontar-se com os comunistas, muito ativos no desencadeamento de greves.
De Sarney para cá só tivemos, à exceção de Collor, a esquerda no poder. O próprio Sarney era integrante da bancada nacionalista e do grupo ''bossa nova'' da UDN com tinturas de esquerda com Seixas Dória e Gabriel Passos. Também Fernando Collor ao lado do crítico de arte José Guilherme Melchior (um liberal radical) e de Hélio Jaguaribe (sociólogo de esquerda) buscou recriar o ''liberal socialismo'' que é anterior ao Manifesto Comunista para dar conteúdo ao seu Partido da Reconstrução Nacional e mais do que isso ao seu governo.
Não há rigor doutrinário nas nossas práticas políticas, pragmáticas e mais fisiológicas do que ideológicas. De uma tonalidade terrível é que não conseguimos nos libertar: o populismo que se opõe radicalmente à austeridade necessária principalmente num retorno, com o silêncio de um ninja, da praga inflacionária. Que não é de direita ou de esquerda e, como lembrava Mario Henrique Simonsen, ela apenas aleija e o câmbio mata.

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