O horror à austeridade
O triunfalismo, que vinha caracterizando o governo Lula, escudado na velha compulsão populista, valendo-se do ciclo favorável da economia mundial, é uma vacina contra a austeridade, prática abominada no Brasil por seus efeitos sabidamente perversos na política. E isso está em teste agora com a votação do salário mínimo de R$ 545 que os demagogos, sem compromisso com a realidade, pensam em aumentar até R$ 600, pouco se lixando com os efeitos deletérios da medida e seu impacto previdenciário, especialmente.
Como se não bastasse o processo inflacionário em andamento, em que chegamos a mais de 6% nos doze últimos meses, conforme o IBGE, em aberta distância aos 4,5% colocados como meta de contenção, temos agora essa batalha na qual a propalada unidade da base política do governo se encontra sob risco, dada a sedução do cortejamento servil aos imaginados anseios da massa. Foi justamente aquela sensação de euforia que assegurou tanto a reeleição de Lula como a da sua sucessora, Dilma Rousseff que, com formação mais técnica, tem precisa noção do momento delicado que ora atravessamos.
Enquanto busca conter os impulsos pantagruélicos da ala mais fisiológica do PMDB a presidente tem no horizonte imediato a questão do combate à inflação, que já se revela tardio, a busca de saídas para os gastos públicos que se tornaram bem pródigos no último exercício em função das eleições e essa questão do salário mínimo. O governo aceita reajuste de 4,5% na tabela do Imposto de Renda, como aspiram as centrais sindicais, para que o mínimo não extrapole o patamar indicado.
É antinômico, para dizer o mínimo, crer em austeridade no Brasil diante da farta exploração que se fez dos feitos econômicos e sociais positivos e da resistência dos políticos, de um modo geral, em aceitar os ônus dos sacrifícios. Temos consciência do que representa a inflação e se há conjuntura incompatível com ela é a do momento que vivenciamos. Arriscar aí é montar o cenário da tragédia.





