O homem que tudo ignora
Pouco importa que o poeta Robert Browning tenha julgado a ignorância não uma forma de inocência, mas de crime. O idealismo poético muitas vezes leva a poesia às culminâncias da beleza e a liberdades criativas sem limites, mas não produz sentença judicial. Mesmo no caso de Browning, cujo pai, obrigado a vigiar o trabalho dos escravos do avô do poeta, nas plantações, libertou-os a todos.
Bem diferente, porque menos categórica e mais paradoxal não fosse ele o autor de Romance de um Trapaceiro e um dos homens mais espirituosos de seu tempo foi a visão do ator, teatrólogo e cineasta Sacha Guitry sobre a ignorância humana: Sei pouco, mas o que sei devo à minha ignorância.
O que pensam os filósofos sobre o assunto? Ao transmitir ensinamento de modo incitante, maieuticamente, o sistema de perguntas e respostas que o levava a formular sempre novas indagações, como se quisesse aprender e não ensinar, Sócrates alvo das perfídias de Aristófanes e das ranzinzices de Xantipa dizia saber apenas que não sabia nada.
E os políticos? Um dos maiores de todos, Disraeli, dado também a incursões literárias autor do escandaloso Vivian Grey não tinha condescendência com a ignorância alheia, em termos políticos: A ignorância jamais resolve uma questão. Era o entendimento do homem prático, habituado à marinhagem política de alto bordo, face aos problemas concretos do dia-a-dia, no século 19, no Império Britânico.
Escolha o leitor o ponto de vista que achar melhor. Todos, no fundo, têm alguma coisa de verdadeira.
No Brasil, o presidente Fernando Henrique Cardoso costuma dizer, quando o pior acontece, que ignorava o que poderia acontecer ou tinha acontecido. A compra de votos no Congresso. A crise do apagão. A venda de informações do Banco Central. Irregularidades nas privatizações. A lista da votação secreta no Senado etc.
Entre nós, quando ficam pendentes, sem as soluções de que fala Disraeli, as questões só fazem agravar-se. E, no caso, a praxe presidencial de repetir que só sabe que não sabe não lhe dá o charme da identidade com a sabedoria socrática.
Além disso, ao contrário de Guitry, suas seguidas alegações de ignorância dos fatos não lhe ensejam lições úteis. Aproximam-no, tão-só, da conclusão do poeta sobre o que faz, em geral, na essência, a ignorância da realidade, com a extrema candidez das inocências: a proliferação do ilícito nos porões do poder e no País.
- RUBEM DE AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





