Um dos melhores livros que li ultimamente é do argentino José Ingenieros, que viveu no fim do século passado e começo deste, cujo título empresto para começar este artigo. Trata-se de uma compilação de aulas proferidas em sua cátedra na Faculdade de Filosofia de Buenos Aires sobre a psicologia do caráter, desmascarando os mais devastadores defeitos morais que impedem a formação de ideais e o enobrecimento da vida.
Hesitei um pouco antes de comprá-lo, por pretensiosamente não me imaginar incluída neste rol de pessoas. Não deu outra! Lá estavam escancaradas algumas características minhas, descatalogadas de minha própria autocrítica. À medida que devorava as páginas, aumentava minha admiração pela obra, deslizando na clareza de idéias, na linguagem poética, na filosofia expressa e, principalmente, impressionada pelo efeito que suas palavras causavam em mim. Já o li várias vezes, e hoje meu pobre exemplar, todo rabiscado na cabeceira, me fez perceber que certas características não são exclusivas minhas, mas da maioria. Só algumas pessoas, contemporâneas ou não, conseguem emergir desta massa de medíocres e quando aparecem são como luzes na escuridão, mostrando com seu exemplo de vida o caminho da nobreza de caráter.
Em poucos dias o mundo perdeu dois de seus grandes luzeiros e um forte sentimento de orfandade prevalece. Diana, princesa de Gales, e a pequena Agnes Gonxha Bojawhiu - a nossa Madre Tereza de Calcutá - se foram, deixando-nos atordoados. A maioria de nós nunca as encontrou pessoalmente, mas a intimidade e a sintonia entre nós eram grandes. Fico me perguntando: por quê? Teríamos transformado-as em faróis que nos orientam em meio à neblina da mediocridade? Ícones, reverenciados e invejados por mostrarem qualidades que suplantam de longe as nossas? Exemplos a ser seguidos, mas que esbarram em nossa pequenez?
Qual mulher não gostaria de ter a beleza, o glamour, o poder, a sensualidade, o dinheiro de Diana, apesar de uma vida pessoal tormentosa? Mente quem diz não. Adorada e admirada por milhões de súditos de uma realeza que lhe foi tirada em vida e lhe devolvida pelo povo na morte, caçada e julgada a todo o instante, esta princesa com os pés no chão marcou um tempo, criou um estilo, usou a força de sua figura pública para objetivos nobres e fez balançar estruturas seculares. Soprou o mofo de uma nobreza rançosa e incompatível com os dias de hoje e ligou o alerta para uma emergente mudança social na Inglaterra e no mundo. Chamou atenção para o real papel e responsabilidade de um líder. E por já ter indicado o caminho e estar pronta, saiu de nosso convívio para conviver com melhores do que nós.
E o que falar de Madre Tereza? Quem não gostaria de ter uma determinação e uma força de caráter que excluísse de seu cotidiano o conforto, a beleza e bens materiais e assumir que, apesar de estarmos em aprendizado constante, somos feitos de uma mistura luminosa que nos leva além das fronteiras palpáveis deste mundo? Alguns de nós têm uma força diferente que faz abraçar uma vida de apostolado franciscano. O efeito é geralmente local, restrito, imediato, paroquial. Diante das dificuldades de enfrentar a morte que ronda, a doença que deve ser tratada, a pobreza a ser amenizada, a solidão a ser preenchida nos resignamos a uma ação emergencial, tapando buracos, ora aqui, ora ali. Pois esta vida não foi a da nossa pequena gigante Agnes. Também ela sabia a força de sua imagem pública e a usou magistralmente para o bem de seus miseráveis de corpo e de alma. Conseguiu manter vivo seu ideal, enfrentando todas as dificuldades e privações num dos países mais pobres do mundo.
Diana e Tereza se foram, deixando um rastro de luz e uma pista. Madre Tereza mais perfeita, sem dúvida, mas Diana igualmente pungente. Deixaram com seu exemplo a certeza de que todos nós podemos sair da mediocridade humana e sermos também tochas acesas dentre a névoa que nos envolve.
O que nos falta para entendermos que podemos ter metas, ideais e objetivos que ultrapassam a fronteira de nossos quintais? Será uma miopia crônica e coletiva o que nos limita os objetivos e nos faz rodar feito pião em torno de nossas obrigações cotidianas? Com quais desculpas confortáveis nos enganamos? Por que não nos mostramos também insaciáveis idealistas com estilo ardente? A única ameaça é a de sermos taxados de românticos sonhadores, mas pelo menos estaremos ‘‘imprimindo nosso traço’’. É hora de deixarmos de cruzar o mundo furtivamente, temerosos da censura da ousadia. Onde foram parar nossos sonhos, mitos, forças e nosso belo discurso de juventude? Talvez embrenhados nas mesmas páginas do livro de Ingenieros!

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