O homem de botas e o pára-quedista
Para entender o que é hoje a América Latina, é necessário conhecer o seu passado, pois a violência, a corrupção, a impunidade e a ingovernabilidade presentes nos países latino-americanos não surgiram agora, mas tiveram suas raízes implantadas através de um processo histórico de onde derivou o tipo de cultura propício à germinação dessas pragas sociais.
Conforme assinalei no meu livro América Latina - Em busca do paraíso perdido, após o processo de independência das colônias hispânicas foram mantidas as estruturas sociais da desigualdade, enquanto na esfera política instalava-se a instabilidade institucional. O fato é que o rompimento com a metrópole, processado entre 1810 e 1824, findou um equilíbrio sem conseguir outro no seu lugar. Era o estilhaçamento do império e o nascimento das repúblicas sob a égide dos caudilhos. São eles que emergirão das guerras da independência, lutando à frente dos seus bandos armados. Bastante numerosos de início, serão submetidos pouco a pouco por supercaudilhos. Esses protótipos dos futuros ditadores latino-americanos ecoarão à sua maneira os ideais revolucionários franceses e norte-americanos, e surgirão como símbolo de esperança para os criollos.
Entretanto, apesar de representarem seus povos e serem deles reflexo, não é menos verdade, como afirmou, Carlos Rangel, que o exercício destas ditaduras eficazes não foi muito bom de ver, e ainda menos agradável de suportar. A pedagogia política desses tiranos foi feita na mesma linha de violência, de autoritarismo, de intolerância e de brutalidade dos conquistadores espanhóis e das sociedades pré-colombianas mais evoluídas, o que, é claro, seria inevitável. Era um cenário de heranças, onde os ideais norte-americanos não conseguiam se encaixar, não passando de pálidas cópias.
Tudo isso significava que as revoluções das oligarquias nativas continham muito mais o elemento da tradição do que o da mudança. O que se desejava alterar era a composição do poder, e não a sua essência. Assim, a partir da Espanha invertebrada, surgiram na América Latina sociedades também invertebradas. Isso aconteceu em grande parte, porque não houve na América espanhola independente (como de resto nem na América portuguesa apesar das diferenças históricas) a comunidade de propósitos que faz com que os grupos integrantes convivam não por estar juntos, mas sim por fazer algo juntos, como colocou o lapidar pensamento orteguiano. Nas sociedades invertebradas e desiguais, o isolamento entre as camadas sociais, a falta de minorias seletas que comandassem o processo emancipatório, a inexistência do espírito associativo, substituído pela vivência do pequeno mundo familiar ou clânico, gerarão o desequilíbrio estrutural cujas manifestações mais graves até hoje sentidas são a instabilidade política, o atraso econômico e, no plano cultural, a desconfiança generalizada e o individualismo.
Tomemos, então, um caudilho moderno, para saber se esta visão é correta. Entre os muitos existentes na América Latina, fixemo-nos por uns breves momentos no coronel pára-quedista Hugo Chávez, que governa a Venezuela há um ano e meio, e que tratou de providenciar sua reeleição com o propósito de se manter no poder por um longo período.
Chávez, na mais genuína tradição populista, possui a retórica que fustiga a corrupção, o domínio das oligarquias políticas, a desigualdade entre ricos e pobres, incluindo na sua verve tudo o mais que costuma nutrir o discurso dos demagogos. Mas o que está fazendo por seu povo o autoritário coronel, que há dois anos tentou um golpe contra o então presidente Carlos Andrés Pérez?
Segundo dados da revista Veja desta semana, a Venezuela vai de mal a pior, com retração de 7,2% no PIB em 1999 e taxa de desemprego de 15%. Desse modo, a grande preocupação da população agora é com o desemprego e a violência, apesar do preço do petróleo, produto do qual depende substancialmente a Venezuela, ter tido seu preço quadruplicado no último ano.
Porém, ao invés de se voltar para o futuro, assimilando as inovações do presente, Chávez permanece atado à tradicional mentalidade do atraso. Ele dá aumentos salariais, promete investir na construção e vitupera contra o capital estrangeiro, a burguesia e a globalização. Com isto, conforme a revista, Chávez afugentou os investidores estrangeiros, que já tiraram da Venezuela US$ 8 bilhões. E sem novos investimentos nem a confiança do empresariado, é difícil superar o ciclo vicioso da pobreza causado, em parte, pela concentração de riquezas em mãos do Estado, que já controla 70% do PIB.
Felizmente, nem só de caudilhos vive a América Latina. Por exemplo, o homem de botas, Vicente Fox, eleito no mês passado presidente do México, revela em entrevista à Veja uma mentalidade inédita para os padrões políticos latino-americanos. Se ele conseguir levar seu discurso à prática, tornando realidade suas idéias e planos de governo, realmente fará jus à vitória obtida sobre o Partido Institucional Revolucionário (PRI), que governou o México por 71 anos perpetuando todas as mazelas inerentes aos partidos únicos.
Fox defende, entre outras coisas, a economia de mercado e a democracia; o desenvolvimento regional; o apoio à pequena e à média empresa com o objetivo de distribuição de renda e de oportunidades; a criação de bancos sociais e de instituições de apoio para facilitar o acesso ao treinamento e à capacitação, aos mercados nacionais e internacionais, à tecnologia e aos métodos de produtividade; o desenvolvimento sustentado e uma revolução educativa.
A entrevista é extensa, mas vale a pena citar pelo menos um dos pensamentos do homem de botas, revelador de sua mentalidade: A geração de riqueza é certamente a melhor maneira de combater a pobreza.
Mesmo que Vicente Fox não consiga reverte no seu governo todo o atraso que o antecedeu, pois não é santo milagreiro, pelo menos parece sinalizar que alguma coisa de fato mudou no cenário político mexicano, o que não é o caso da Venezuela, onde o apelo ao caudilhismo ainda é muito forte.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora, professora universitária em Londrina
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