O herói Santos Dumont - Alceu Serpa Ferraz
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 22 de outubro de 1998
Alceu Serpa Ferraz 
A História é feita de ocasiões em que o momento muda o curso da vida e do comportamento humano; por alguns instantes parece que o mundo fica parado aguardando definição. O dia 18 de junho de 1815 ficou marcado pela Batalha de Waterloo, na qual, Napoleão Bonaparte foi derrotado por Wellington, perdendo seu domínio sobre quase toda a Europa (fato magistralmente descrito por Stephan Zweig em seu livro O Momento Supremo). Também o dia 21 de julho de 1969, quando Neil Armstrong, em dos três astronautas da Apolo 11, pisou o solo lunar dando início à era das viagens interplanetárias.
Muito antes desse fato, mais precisamente na tarde de 23 de outubro de 1906, nos campos de Bagatelle, próximo a Paris, o mundo parou para ver um brasileiro, Alberto Santos Dumont, levantar vôo com o seu 14 Bis, para literalmente mostrar aos homens o caminho das estrelas. E eles aprenderam a lição, construindo as máquinas maravilhosas que hoje rasgam o espaço fazendo o mundo menor e, talvez, melhor.
Naquele dia, após várias tentativas na presença de representantes do Aeroclube de Paris e diante do fascínio de uma centena de pessoas, o 14 Bis voou nada além de 60 metros, a uma altitude de aproximadamente 3 metros, no tempo de 21 segundos. Este vôo, tão modesto hoje, foi o suficiente para consagrar seu inventor e cobrir de glória o Brasil que ali tinha o seu filho mais ilustre.
O êxito, então alcançado, foi o coroamento de muitos outros sucessos que Santos-Dumont obteve na construção de balões, tendo sido o ganhador do Prêmio Deutcsh de la Meurthe instituído para o primeiro aeronauta que voasse em torno na Torre Eiffel e voltasse ao ponto de partida em 30 minutos. Essa vitória ocorreu no dia 19 de outubro de 1901, com o balão nº 9 tendo ganho prêmio no valor de 129.000 francos, que Santos-Dumont generosamente doou a seus mecânicos e operários (50.000 francos) e o restante distribuiu aos pobres de Paris
Com o sucesso obtido com o vôo do 14 Bis, Santos-Dumont recebeu o Prêmio Archdeacon e o título de Pai da Aviação. Esta homenagem foi perenizada na forma de um monumento em Saint Cloud (lugar onde ocorreu a maioria de suas experiências com os balões), inaugurado em 19 de outubro de 1913, quando, então em cerimônia promovida pelo Aeroclube de Paris, Santos-Dumont recebeu a Comenda da Legião de Honra sob os acordes da Marselhesa e do Hino Nacional Brasileiro.
Na época, Paris era o centro das pesquisas aeronáuticas, e, apesar dos êxitos e prêmios obtidos por Santos-Dumont, a paternidade do avião não foi aceita sem objeções, principalmente nos Estados Unidos, onde os irmãos (Wilbur e Orvile) Wright já vinham fazendo experiências com o mais pesado que o ar desde o início do século.
Na avaliação dos incontáveis méritos dos irmãos Wright cabe a análise de um pequeno (?) mais importante detalhe. Os seus vôos eram realizados com planadores e, mais tarde, com um avião que decolava com o auxílio de uma catapulta, fazendo-o deslizar sobre um trilho de madeira. Faltava a eles, portanto, um detalhe importante, isto é, um motor que fizesse seu avião voar com suas próprias forças, detalhe que sempre foi devidamente valorizado por Santos-Dumont.
O 14 Bis voou com um motor de 50 cavalos desenvolvido pelo próprio aeronauta, cumprindo rigorosamente as exigências estabelecidas pelo Aeroclube de Paris a tal ponto entusiasmando o seu presidente (Ernest Archdeacon) que ele, durante um banquete em homenagem a Santos-Dumont disse: Se algum dia eu pudesse pecar por inveja, pecaria hoje invejando o meu amigo Santos-Dumont, que conseguiu conquistar uma das glórias mais belas que o homem pode ambicionar neste mundo. Acaba de realizar, não em segredo, nem diante de testemunhos hipotéticos e complacentes, mas à plena luz meridiana e perante uma multidão, um soberbo vôo de 60 metros, a 3 metros de distância do solo, o que constitui um fato decisivo na história da aviação.
A polêmica sobre a paternidade do avião, que durante 92 anos vem alimentando dúvidas e controvérsias entre americanos e brasileiros, não deve mais existir. Em 14 de outubro de 97, o Brasil recebeu a visita oficial de Bill Clinton e ele, em seu primeiro discurso em terras brasileiras, foi claro, quando elogiou as várias contribuições que o Brasil já deu aos Estados Unidos. Referiu-se especificamente a Cândido Portinari, Jorge Amado, Pelé, Tom Jobim e a Santos-Dumont como o Pai da Aviação. Reconhecendo assim, o incontestável mérito de nosso conterrâneo.
Imaginei que esse discurso seria amplamente divulgado por nossa imprensa, pois foi espontânea e responsável como deve ser a fala de um governante do país mais rico do mundo. Porém, creio que essa polêmica ainda vai continuar por muito tempo, porque as nossas condições de luta são muito menos eficientes que a dos americanos; lá há mais cultura, respeito à tradição, poder de propaganda e, temos que reconhecer, mais amor a seus heróis.
Cabe a nós, exclusivamente a nós brasileiros, valorizar as palavras do presidente Clinton e, mais ainda, reconhecermos que Santos-Dumont não é apenas um grande vulto brasileiro: é um patrimônio moral da humanidade.
O dia 23 de outubro é, na Semana da Asa o dia em que se comemora o Dia do Aviador. Portanto, a eles em atividade ou já recolhidos à suas memórias, as nossas mais calorosas homenagens.
- ALCEU SERPA FERRAZ é médico em Londrina


