O grito dos desvalidos - Gaudêncio Torquato
O grito dos desvalidos
Gaudêncio Torquato O homem não é senão um caniço, mas é um caniço pensante. A frase é de Pascal e revela a força do ser humano, na luta pela sobrevivência. Quem imagina um caniço, delgado, frágil, vergando-se ao primeiro empurrão do vento, surpreende-se com sua invulgar capacidade de não quebrar, retrátil que é, reposicionando seu perfil ereto e altaneiro, após a tempestade. Como caniço, o homem oscila, ao sabor das circunstâncias, mas volta ao eixo e vence os dissabores do tempo, graças ao dom de pensar. Milhões de brasileiros balançam no embalo da crise, alimentada pelo furor de uma batalha que consome energias de pequenos e médios produtores rurais, afastados de uma safra agrícola cada vez mais exclusiva de grandes proprietários concentrados em áreas privilegiadas do território nacional.
Aos pequenos produtores, pulverizados pelos cantos do País, dizimados pela fria burocracia estatal, restaria conformar-se com a máxima nazista, que, um dia, no deserto do Norte da África, o marechal Erwin Rommel tornou célebre, ao contemplar os exércitos aliados devastados de maneira cruel por sua blitzkrieg: Os pobres nunca deviam fazer guerra. Mas os pequenos, mesmo vergados, não se deixam morrer, não aceitam o bordão nazista, pensam e partem para a ação.
No Nordeste, neste dia 10 de julho, um destemido pelotão de combatentes, comandados por um guerreiro criador de cabras, chamado Nélio Dias, vai ensaiar um canto de guerra contra a crueldade de uma política econômica, que sufoca o grito dos marginalizados. No cenário duro do agreste, ao sopé de um vulcão extinto, hoje ícone imagético do Rio Grande do Norte - o Pico do Cabugi - valentes guardiões da produção dos campos montarão um bastião de resistência, dentro de uma concentração de massa intitulada O Grito da Seca.
O que querem esses conspiradores de boa-fé, talhados pela força da convicção cidadã, senão justiça, direito a linhas de financiamento, recursos para melhoria do sistema de distribuição dos produtos agropecuários, melhoria da comercialização? Do outro lado do balcão, calculistas da economia estável, empedernidos filhos de uma visão argentária de sociedade, olham com desdém esse tipo de movimento, na crença de que ele representa uma visão assistencialista. Nada mais errado. Afinal de contas, para que serve o Banco do Nordeste? Para financiar grandes projetos industriais? Para ajudar mais ainda a quem já tem? Onde estão as funções sociais do BNDES, senão no sofisma expresso pela letra S de quem esqueceu o pequeno universo produtor?
O presidente do Banco do Nordeste, Byron Queiroz é um excelente saneador de contas. Onde está, porém, seu compromisso com a grande sociedade nordestina, aquela que produz e dá empregos, que sofre e se angustia com os juros, que luta para pagar em dia os compromissos, que pouco tem acesso a linhas de crédito para recuperação da empresa e capital de giro? A água, é verdade, caiu em algumas regiões do Nordeste, a ponto de alguns acharem anacrônica a idéia de se proferir um Grito da Seca. Viajando pelos fundões dos Estados, porém, ver-se-á que a produção será escassa, apesar do verde do pasto. Sergipe, por exemplo, é um deserto.
Albano Franco, do alto de sua rude franqueza, poderá engrossar a voz dos assolados. Tasso Jereissati é um administrador moderno, que derrubou o coronelismo cearense. Precisa estirar a mão social e abrir uma janelinha do BNB para deixar entrar aqueles que têm fome de justiça e de um pequeno crédito. Garibaldi Alves, que tanta ênfase deu ao projeto água, no Rio Grande do Norte, não pode esquecer que uma administração é um conjunto sistêmico e generalizado de ações, programas e obras, onde a pequena e média produção deve ter prioridade. Jarbas Vasconcelos é uma mescla que junta racionalidade e populismo, armas que só disparam certeiramente quando os bolsões mais necessitados são contemplados. Mão Santa, do Piauí, pode usar sua liturgia mística para homenagear a Bíblia dos deserdados. Roseana Sarney, com seu charme e visão moderna da administração, pode ser a Eva Peron nordestina. E o alagoano Ronaldo Lessa pode começar juntando os cacos do Estado, colando as partes quebradas dos setores marginalizados.
No mais, é pôr fé no grupo valente do Pico do Cabugi, forte como a cabra, que, no dizer de João Cabral de Melo Neto, é um animal de alma-caroço, de alma córnea, sem moelas, úmidos lábios, pão sem miolo, apenas côdea, liberdade de fome e sede, capaz de pedra.
- GAUDêNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)
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