A educação superior atravessa um momento de inflexão histórica. Nos Estados Unidos, o que por décadas foi visto como o bilhete dourado para o sucesso pessoal e profissional começa a perder brilho. Uma pesquisa recente da Gallup revela uma transformação radical na percepção pública: hoje, apenas 35% dos americanos consideram a faculdade "muito importante", uma queda impressionante de mais de 30 pontos percentuais desde 2010, quando esse número chegava a 75%.

Ao mesmo tempo em que o prestígio da universidade declina, cresce a parcela da população que a vê como "não muito importante". Esse grupo saltou de 4% para 24% na última década e meia. Já os que consideram o ensino superior "razoavelmente importante" permaneceram estáveis, por volta dos 40%. Isso sugere que não se trata de dúvida, mas de uma reavaliação profunda: o diploma ainda vale o que custa?

E o custo, de fato, pesa. Nos EUA, uma graduação pode ultrapassar os 50 mil dólares anuais em instituições privadas e 35 mil nas públicas. Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho começou a valorizar habilidades técnicas e específicas — muitas vezes adquiridas fora do ambiente universitário — enquanto a inteligência artificial ameaça precisamente os empregos administrativos e intelectuais que justificavam, no passado, o investimento em um diploma.

Enquanto isso, no Brasil, o sonho universitário segue de pé. Cerca de 65% dos estudantes do ensino médio aspiram à educação superior. No entanto, apenas 18% dos adultos brasileiros completaram uma graduação — um dos índices mais baixos entre países de renda média. Isso revela um abismo entre desejo e realidade.

A razão para essa valorização persistente parece clara: adultos com diploma universitário no Brasil ganham, em média, 148% a mais do que aqueles com apenas o ensino médio. O "prêmio educacional" continua alto o suficiente para justificar, para muitos, o esforço e o custo envolvidos.

O contraste entre Brasil e Estados Unidos oferece lições cruciais. A experiência americana mostra que a universidade, quando se desconecta das demandas do mundo real, perde relevância. Cursos que não geram empregabilidade ou que podem ser substituídos por tecnologia enfrentam um ceticismo crescente. Já no Brasil, o desafio é outro: ampliar o acesso sem perder de vista a qualidade, a atualização curricular e a conexão com as transformações tecnológicas.

A pergunta não é se a universidade vai desaparecer — com 264 milhões de estudantes universitários previstos no mundo até 2025, ela segue viva. A pergunta é: que universidade sobreviverá?

O modelo tradicional, focado em teoria e duração longa, disputa espaço com novas formas de ensino: bootcamps, micro-credenciais, formações técnicas rápidas. A universidade precisa agora justificar seu valor ensinando o que não se aprende facilmente em máquinas — pensamento crítico, criatividade, ética, adaptabilidade.

Para o Brasil, a janela de oportunidade ainda está aberta. Mas ela não ficará assim por muito tempo. O alerta americano é claro: sistemas que ignoram as mudanças do mercado e da tecnologia arriscam-se à irrelevância — e o custo da irrelevância, no século XXI, é impagável.

Abraham Shapiro, consultor de empresas.

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