Chegou o momento de organizar e dar coerência às ações do vasto movimento mundial surgido para contrapor-se à globalização neoliberal, iniciada em 1998, com as mobilizações na Europa contra o Acordo Multilateral de Investimentos, que irrompeu impetuosamente em Seattle, no final de 1999, e continuou em 2000 em Washington, Praga e Nice, com gigantescos protestos contra as políticas do FMI e do Banco Mundial. Tais acontecimentos levaram à realização do primeiro Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, iniciado no dia 25 e que termina no dia 30, com mais de 900 organizações e mais de 120 países.
A proposta de criar o fórum é consequência das grandes mobilizações dos três últimos anos, que evidenciaram a insurgência de um movimento cívico que ultrapassa as fronteiras nacionais. Neste contexto, o fórum representa um passo qualitativamente novo para a construção de um contra-poder planetário. As nações do Terceiro Mundo, bem como os pobres e os excluídos dos países desenvolvidos, sofrem os efeitos da política devastadora da globalização liberal e da ditadura dos mercados conduzida pelo FMI, pelo Banco Mundial e pela Organização Mundial do Comércio (OMC).
O Brasil é uma das grandes vítimas desta situação. Mas, como muitos outros, também é cenário de uma resistência crescente contra essa ordem mundial desumana. De fato, as organizações populares já contam com sólidos pontos de apoio em vários Estados e em numerosos municípios. A indicação de Porto Alegre, como sede do fórum, por parte de organizações européias, implica o reconhecimento da importância das forças progressistas brasileiras e das conquistas democráticas obtidas pelo PT.
O novo movimento interpela a questão às grandes instituições internacionais, que se habituaram, durante décadas, a adotar decisões que afetam centenas de milhões de pessoas à margem de todo controle democrático. Agora, elas estão descobrindo que terão de prestar contas de seus atos perante uma opinião pública cada vez mais consciente e exigente. Também os governos sabem que sobre eles está sendo exercida uma vigilância cada vez mais rigorosa.
O encontro de Porto Alegre tem uma característica que o diferencia. Não será uma manifestação de protesto, mas a inauguração de um espaço de reflexão, de articulação e, principalmente, para apresentação de alternativas à globalização neoliberal. Estará aberto aos que buscam e constróem fórmulas para priorizar o desenvolvimento humano e para superar a dominação que os mercados exercem sobre as nações e as relações internacionais.
Tal como disse Bernard Cassen, fica cada vez mais claro que ‘‘na medida em que as políticas nacionais estão determinadas pelas orientações adotadas em nível internacional, a impugnação e a adoção de propostas alternativas devem acontecer no mesmo nível’’. Essa é, precisamente, a função que cabe ser executada pelo fórum. A data coincide com o Fórum Econômico Mundial que, desde 1971, é realizado em Davos. O Fórum de Davos é financiado por mais de mil corporações multilaterais e cumpre um papel estratégico na formulação do pensamento dos defensores das políticas neoliberais de todo o Planeta.
Com relação à escolha de Porto Alegre, que há 12 anos é governada por uma coalizão de centro-esquerda encabeçada pelo PT, cito a opinião de quem não é brasileiro, Ignacio Ramonet, diretor do ‘‘Le Monde Diplomatique’’, que considera esta cidade uma espécie de laboratório social que fascina os observadores internacionais. ‘‘Esta cidade experimentou um desenvolvimento espetacular em diversas áreas: saúde pública, transporte coletivo, habitação, sistema viário, coleta de lixo, meio ambiente, segurança, educação, cultura e alfabetização, entre outras. O segredo? O orçamento participativo, isto é, a faculdade dos habitantes dos diferentes bairros para definir de maneira concreta e bastante democrática a alocação dos fundos municipais (...) e de vigiar passo a passo a execução das obras’’.
O resultado é que os investimentos dos recursos municipais correspondem aos desejos da maioria da população dos bairros e, ao mesmo tempo, torna impossível a corrupção e a malversação de fundos. Assim, Porto Alegre bem merece constituir-se, por alguns dias, na capital do movimento internacional alternativo à globalização neoliberal e ser a sede da fundação do fórum.
- LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA é presidente de honra do PT (IPS)

mockup