O governo sobe no palanque
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de julho de 1998
João Paulo Cunha 
Grande parte do povo brasileiro reconhece na aproximação das eleições um momento de atendimento de suas expectativas. As elites políticas do Brasil alimentam este sentimento popular. E é assim que em várias partes do País a busca do voto vira um verdadeiro mercado: troca-se tudo. O processo de democratização do País alimentou a possibilidade de reduzir este tipo de política. Em 94, com a eleição de Fernando Henrique Cardoso, imaginávamos que, por mais conservadora que fosse a aliança que o levou à vitória, algumas mudanças culturais e educativas frutificariam em seu mandato.
Não foi o que aconteceu. Fernando Henrique deixou de ser mais um participante da aliança conservadora para ser seu verdadeiro representante. E nessa condição tem conduzido a economia e a política no Brasil. Ao implantar o real em 94, FHC apresentou à população a mão espalmada em que cada dedo significava uma prioridade. Durante o mandato, o símbolo de sua campanha transformou-se em armadilha. Os dedos se quebraram, enquanto as promessas são renovadas pelo presidente-candidato, que garante para os próximos anos o que não fez antes.
Sem resultados, o governo FHC iniciou o processo de massificação propagandística e processou a abertura desenfreada dos cofres públicos. Quem ficou alguns minutos em frente à TV nos últimos dias assistiu ao esforço feito para melhorar a imagem do presidente-candidato. Saiu de cena o intelectual distante dos problemas sociais, que não reconhece a crise do desemprego, a fome e a violência, e assume outra personagem, pretensamente sensível a ponto de incluir o carinho em suas propostas de governo. Quem assiste à propaganda, por exemplo, pode pensar que o problema da seca está sendo resolvido.
Outra estratégia é acelerar as obras públicas, escassas durante três anos e meio de mandato. O Porto de Sepetiba, no Rio de Janeiro, é um exemplo. Só estará efetivamente pronto para funcionar no final do ano, mas já foi inaugurado com festa e palanque. Na TV, o ator e músico Rolando Boldrin anuncia os milhares de empregos que esta iniciativa irá gerar.
Para segurar a queda nas pesquisas, Fernando Henrique aumentou os recursos para a agricultura em quase R$ 1 bilhão e reduziu em 0,75% a taxa de juros dos empréstimos aos pequenos agricultores. Mudou as regras dos financiamentos da CEF e liberou R$ 6 bilhões para a compra e construção de imóveis. Liberou quase R$ 2 bilhões para os municípios atingidos pela seca. Depois de três anos e meio sem aumento, o funcionalismo foi brindado com um reajuste que representa um custo extra para o governo de aproximadamente R$ 500 milhões. Cria-se, assim, a fantasia de que finalmente o governo voltou seus olhos para os problemas sociais, o que está longe de ser verdade. Se gastar tudo o que prometeu, o governo corre o risco de afundar mais ainda as contas públicas.
Depois de três anos e meio de mandato, Fernando Henrique Cardoso está devendo à população. Seu governo manteve uma administração voltada exclusivamente às questões financeiras. Suas reformas, que prometiam modernidade e desenvolvimento, limitam-se a restringir os direitos adquiridos de trabalhadores e servidores públicos; em nada contribuíram para a implantação de sistemas mais democráticos e abertos à participação e controle popular da gestão pública. A segunda parte de suas reformas pretende, entre outras coisas, transferir para organismos privados a responsabilidade de prestar serviços de saúde, educação e seguridade, entre outros.
Nos planos de governo, empresários receberão dinheiro do Orçamento da União para prestar à população serviços essenciais. É com certeza o primeiro passo para a privatização do Estado que, na mentalidade neoliberal, deve ter um caráter apenas regulador. Os planos reais do presidente FHC em nada se parecem com os discursos e a postura do candidato FHC. O presidente já comprovou, em três anos e meio no poder, que não tem compromissos sociais ao direcionar toda a sua administração apenas para os problemas financeiros.
- JOÃO PAULO CUNHA é deputado federal pelo PT/SP


