Grande parte do povo brasileiro reconhece na aproximação das eleições um momento de atendimento de suas expectativas. As elites políticas do Brasil alimentam este sentimento popular. E é assim que em várias partes do País a busca do voto vira um verdadeiro mercado: troca-se tudo. O processo de democratização do País alimentou a possibilidade de reduzir este tipo de política. Em 94, com a eleição de Fernando Henrique Cardoso, imaginávamos que, por mais conservadora que fosse a aliança que o levou à vitória, algumas mudanças culturais e educativas frutificariam em seu mandato.
Não foi o que aconteceu. Fernando Henrique deixou de ser mais um participante da aliança conservadora para ser seu verdadeiro representante. E nessa condição tem conduzido a economia e a política no Brasil. Ao implantar o real em 94, FHC apresentou à população a mão espalmada em que cada dedo significava uma prioridade. Durante o mandato, o símbolo de sua campanha transformou-se em armadilha. Os dedos se quebraram, enquanto as promessas são renovadas pelo presidente-candidato, que garante para os próximos anos o que não fez antes.
Sem resultados, o governo FHC iniciou o processo de massificação propagandística e processou a abertura desenfreada dos cofres públicos. Quem ficou alguns minutos em frente à TV nos últimos dias assistiu ao esforço feito para melhorar a imagem do presidente-candidato. Saiu de cena o intelectual distante dos problemas sociais, que não reconhece a crise do desemprego, a fome e a violência, e assume outra personagem, pretensamente sensível a ponto de incluir o ‘‘carinho’’ em suas propostas de governo. Quem assiste à propaganda, por exemplo, pode pensar que o problema da seca está sendo resolvido.
Outra estratégia é acelerar as obras públicas, escassas durante três anos e meio de mandato. O Porto de Sepetiba, no Rio de Janeiro, é um exemplo. Só estará efetivamente pronto para funcionar no final do ano, mas já foi inaugurado com festa e palanque. Na TV, o ator e músico Rolando Boldrin anuncia os milhares de empregos que esta iniciativa irá gerar.
Para segurar a queda nas pesquisas, Fernando Henrique aumentou os recursos para a agricultura em quase R$ 1 bilhão e reduziu em 0,75% a taxa de juros dos empréstimos aos pequenos agricultores. Mudou as regras dos financiamentos da CEF e liberou R$ 6 bilhões para a compra e construção de imóveis. Liberou quase R$ 2 bilhões para os municípios atingidos pela seca. Depois de três anos e meio sem aumento, o funcionalismo foi brindado com um reajuste que representa um custo extra para o governo de aproximadamente R$ 500 milhões. Cria-se, assim, a fantasia de que finalmente o governo voltou seus olhos para os problemas sociais, o que está longe de ser verdade. Se gastar tudo o que prometeu, o governo corre o risco de afundar mais ainda as contas públicas.
Depois de três anos e meio de mandato, Fernando Henrique Cardoso está devendo à população. Seu governo manteve uma administração voltada exclusivamente às questões financeiras. Suas reformas, que prometiam modernidade e desenvolvimento, limitam-se a restringir os direitos adquiridos de trabalhadores e servidores públicos; em nada contribuíram para a implantação de sistemas mais democráticos e abertos à participação e controle popular da gestão pública. A segunda parte de suas reformas pretende, entre outras coisas, transferir para organismos privados a responsabilidade de prestar serviços de saúde, educação e seguridade, entre outros.
Nos planos de governo, empresários receberão dinheiro do Orçamento da União para prestar à população serviços essenciais. É com certeza o primeiro passo para a privatização do Estado que, na mentalidade neoliberal, deve ter um caráter apenas regulador. Os planos reais do presidente FHC em nada se parecem com os discursos e a postura do candidato FHC. O presidente já comprovou, em três anos e meio no poder, que não tem compromissos sociais ao direcionar toda a sua administração apenas para os problemas financeiros.
- JOÃO PAULO CUNHA é deputado federal pelo PT/SP

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