O governo e seus castelos de areia - Mírian Guaraciaba
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quarta-feira, 28 de abril de 1999
Mírian Guaraciaba 
De igual tamanho e importância para o presidente Fernando Henrique Cardoso, o controle da inflação e a honestidade dos funcionários públicos do primeiro e segundo escalões da administração federal eram a razão de pregações dentro e fora do governo. E ponto de equilíbrio do presidente e seus principais auxiliares.
A estabilidade quase ruiu há três meses, quando as autoridades econômicas conduziram muito mal o inevitável descolamento do dólar da economia brasileira. A moeda disparou, o real foi posto em xeque e a inflação voltou a assombrar os brasileiros.
Tudo isso sem uma palavra de conforto ou de estímulo do governo para os que acreditavam viver no melhor dos mundos, como dizia o presidente. Descobrimos de repente, quase em pânico, que o nosso castelo de areia estava bem pertinho da rebentação das ondas.
Para sorte do governo, a sociedade - leia-se os setores produtivos, empresários e trabalhadores - reagiu contra o monstro inflacionário. Sem qualquer orientação preventiva das autoridades, a população agiu praticamente sozinha. E impediu a volta da inflação.
Depois do baque econômico-financeiro, outro castelo de areia está desmoronando. Honestos funcionários públicos, nomeados pelo presidente da República, envolveram-se em falcatruas, negócios suspeitos, procedimentos ilícitos.
No Ministério da Agricultura, denúncias de corrupção são investigadas em várias auditorias e sindicâncias - algumas do Ministério da Fazenda. Podem esbarrar em gente grande e chegar a políticos. Hoje será concluído mais um inquérito.
No Ministério do Meio Ambiente, auditoria internacional virá ao Brasil para apurar a aplicação de US$ 1,2 milhão doados pela União Européia ao Programa Piloto G7, voltado para a Amazônia e a Mata Atlântica. A nossa prestação de contas foi rejeitada.
Na Polícia Federal, o vazamento de conversas telefônicas gravadas por alto funcionário pôs a nu histórias cabeludas de chantagem e irregularidades, envolvendo a casta do governo. Fato idêntico ao que levou, no primeiro governo de Fernando Henrique, à demissão de um ministro militar, um embaixador e um assessor graduado.
Grampos e espionagem parecem praga na gestão de Fernando Henrique. Para um governo transparente é absurda a incidência de bisbilhoteiros jamais identificados.
Grampo é crime, é violação do direito mais básico do cidadão, é invasão de privacidade. Mas foi assim que caiu o ministro das Comunicações, substituto do primeiro-amigo Sérgio Motta. Luiz Carlos Mendonça de Barros, na presidência do BNDES, falou o que não devia. Sua conversa foi gravada e vazada.
No caso do ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes - agora na mídia pelo vexame na CPI dos Bancos - por mais longe que passe do presidente Fernando Henrique e do ministro da Fazenda, Pedro Malan, será dificílimo acreditar que ninguém suspeitava de sua possível dupla atividade. Caso contrário, como explicar a nomeação e exoneração relâmpagos? Chico ficou uma semana na presidência do Banco Central.
Desde os tempos do presdidente Fernando Collor e de seu tesoureiro PC Farias, nunca se ouvia falar tanto de corrupção, suspeitas e denúncias. Ao que tudo indica, Chico Lopes tem culpa no cartório. Se ficar em situação difícil, o temor no governo é o de que o ex-presidente do BC comprometa a imagem dos castelos erguidos por Fernando Henrique.
- MÍRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília


