O gênio brasileiro... e a filosofia
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de junho de 1997
Carlos Ribeiro 
Dizem que de gênio e de louco todo mundo tem um pouco. Todo mundo, exceto o brasileiro médio (e lembremos que todo brasileiro autêntico é médio). Ele é um gênio total, o ápice da evolução humana. Explico melhor: o brasileiro representa uma nova e desconcertante espécie de gênio popular - um iluminado nato. E como ainda por cima Deus é brasileiro, esse novo gênio não precisa sequer se conscientizar e se responsabilizar de verdade.
Em caso de dúvidas sobre o gênio brasileiro, faça o seguinte teste (o teste que eu, mero aprendiz, fiz algumas vezes): argumente distoando em relação a seu senso comum, seu comportamento, sua filosofia de vida, que o gênio baixa e ele defende seus valores e auto-ilusões com a maior sabedoria do mundo. E faz isso sintetizando em poucas frases toda a razão existente e por haver, desta era e da próxima. E contra qualquer velharia filosófica, ele saca o último livro de auto-ajuda, lavrado por algum alto luminar da atualidade.
É por isso que num ambiente humano e cultural tão extraordinário como o nosso não há chances de florescer alguma coisa como a filosofia, embora atualmente ela renasça, volte às universidades e desperte discreto interesse em todo o mundo. Gregos e italianos, ingleses, alemães, franceses - só para citar alguns povos infinitamente menos experientes, sábios e geniais como o nosso - não só fizeram (e ainda tentam fazer) filosofia como compram (e lêem) mais livros que o povo brasileiro. Mas quem precisa disso numa terra de sábios que são ainda mais sábios que Montaigne jamais foi?
Inútil defender que se dê uma chance - num mundo de mil propostas e panacéias - para essa velha coitada da filosofia, argumentar que ela não tem de ser necessariamente útil, no sentido imediatista. Não, curiosamente é neste país que se orgulha de sua vocação para jogar tempo fora onde menos se aceita a inutilidade da filosofia. Desconfiado de qualquer tipo de análise (com exceção de análise de futebol), nossa lógica se aguça admiravelmente quando se trata de provar - sem possibilidade de contestação possível, como gostam de enfatizar os retóricos - como é inútil e dispensável a filosofia (ou a poesia, o ensaio, a pesquisa comparativa etc).
Mas de que pesquisa ele fala? No que esses estudos melhorariam um ideal de mundo já tão aprimorado que pressupõe que todos devam dividir suas atividades entre vender seu produto e ser babá dos outros? Como esses estudiosos se atrevem a sugerir que nós deveríamos procurar e ler, nas bibliotecas e centros de estudos, o que eles pesquisaram e divulgaram, nos fazendo perder até o mais banal jogo de campeonato ou a última novidade em CD-Rom? Ou, cretinice das cretinices, que deveríamos também manter a atenção nessas altas discussões - maniqueísmo, paradoxo, consciência, para citar só algumas - e discuti-las entre uma seção de TV e outra?
Explicar que pode não ser bem o caso de ter utilidade prática, mas de cultivar o espírito, entreter de forma inteligente, questionar mitos e mal-entendidos do senso comum, aprimorar-se como pessoa, abrir brechas para a consciência, pode soar até como agressão. E nesse clima de animosidade resulta inviável tentar argumentar que a filosofia - atividade do espírito humano há 2.600 anos - possa ter, afinal, algum mesmo que modesta, acessória e temporária utilidade (talvez uma assessora do senso comum, se é que isso não fere demais nossa imensa humildade orgulhosa).
Em que raiz se assenta a falta de ética, o sucateamento da educação, os atropelos do dia a dia, a submissão e modismos e cartilhas importadas? Só pode ser na genialidade, no caráter predestinado de uma gente nova. É também na corrupção e na sem-vergonhice onde se reconhece a genialidade acima de qualquer arrazoado - a diferença que faz a diferença, como diz certo gênio da raça, discípulo de Gerson como Aristóteles foi de Platão. Dizer que entre a burrice e a canalhice não passa o fio de uma navalha é grosseiro e inócuo diante da alta e sintética metafísica do brasileiro. (E digo isso com mais pasmo que ironia).
Olavo de Carvalho, autor de um dos melhores livros dos últimos anos (O Imbecil Coletivo, 1996), afirmou que o Brasil é um país que persegue a atualidade em vez da verdade (não é genial?). Sua afirmação, embora de admirável profundidade e amplitude, acaba soando em nossos ambientes como uma banalidade idiota, não repercute sequer nas camadas superiores de nosso gênio, que dirá no eu interior que precisa despertar (nascer de novo), já que, se há crise, tudo indica que ela é e sempre foi de consciência. Sabedoria mesmo é a de consumidor: isso sim, é e sempre será por todos os séculos dos séculos.
Tentar dar uma cor local ao argumento, mencionar centros de estudos da cidade (de filosofia ou qualquer outra matéria que venha a ver com a consciência), ou citar, em socorro do solitário argumentante, alguma referência respeitável, como aquele consciencioso médico que aponta a filosofia como um caminho para a ética na medicina, ou um colunista deste jornal, que já cansou de dizer que o que falta nos governos e parlamentos é também a filosofia, talvez não ajude muito. Se até apanhando o povo demora a aprender (quando aprende), que dirá com argumentos dessa extração!
E peço desculpas aos leitores por ter tomado seu tempo com um assunto tão enfadonho e desprezível. A filosofia tem de se atualizar, se encher de cores e botõezinhos para não irritar nossa impaciência de bebezões instintivos e geniais, orgulhosos de si mesmos e de seu berço eternamente esplêndido.


