O guia chileno não se contém. Depois de enumerar as belezas de Vi¤a del Mar, ele aponta a casa de veraneio de Augusto Pinochet no elegante balneário à beira do Pacífico. É apenas uma entre as diversas mansões que o ex-ditador possui no Chile - em La Serena, Santiago, no Cajón del Maipo (em plenaCordilheira dos Andes) - e que parecem fazer parte das atrações turísticas do país: movidos por algum sentimento difícil de decifrar, os chilenos fazem questão de mostrá-las aos turistas estrangeiros. Pergunto-lhe quantas casas o general tem. Ele diz que não sabe, mas acrescenta, com um sorriso mordaz: ‘‘Pobrecito Pinochet. Tem poucas casas.’’
Pinochet ainda é uma figura predominante no Chile. A distribuição de suas mansões em várias cidades, de norte a sul do país, parece simbolizar a onipresença do ex-ditador, que só em março passado deixou o comando das Forças Armadas.
O séquito de automóveis, seguranças e batedores de motocicletas que o acompanha num simples passeio pela cidade é outro exagero. A ambulância que integra o autoritário cortejo, em que carros são obrigados a sair da estrada para dar passagem ao general, nos invoca a lembrança do frustrado atentado nos anos 80 e nos dá a impressão de que o ilustre passageiro é um eterno ditador, um ditador vitalício.
Não é, mas parece. Ao contrário do que aconteceu com os outros ditadores militares da América Latina, Pinochet deixou uma herança muito palpável e ainda não saiu de cena. Pelo contrário. Haja vista a comoção que sua detenção na Inglaterra está causando no país. Sem falar na imunidade/impunidade de que goza por força do cargo de senador vitalício: o prêmio-consolação que recebeu ao, finalmente, deixar o comando das Forças Armadas.
Vinte e cinco anos depois do sangrento golpe que derrubou Salvador Allende - patrocinado pelos Estados Unidos - e oito anos depois da redemocratização do Chile, o país ainda possui uma atmosfera extremamente militarizada, o que é sentido já no Aeroporto de Santiago. Lá, malas e bagagens passam por aparelhos de Raio-X antes de serem liberadas para entrar no país, procedimento típico das ditaduras. E as marcas de tiros nas paredes do Palácio La Moneda, datadas do golpe de 1973, não deixam de ser uma advertência de que a história pode se repetir.
A prisão do ex-ditador na Inglaterra reabriu feridas de guerra e demonstrou o quanto a sociedade chilena permanece dividida. As consequências desse racha são imprevisíveis. Uma decisão final sobre o julgamento ou não de Pinochet deve demorar meses, ou mesmo anos, se a Câmara dos Lordes reafirmar em janeiro a autorização para extraditar o ex-ditador concedida no final de novembro, mas anulada a pedidos dos advogados do general.
Até o desfecho desse labirinto jurídico, Pinochet estará à disposição da Justiça britânica como réu. Seja na Espanha ou na Grã-Bretanha, Pinochet poderá ser submetido a um julgamento justo, com direito a advogados caríssimos, e deverá aguardar a decisão sobre sua extradição encastelado na luxuosa mansão de Twin Pines, situada no condado de Wentworth, um subúrbio londrino.
Privilégios, aliás, que as vítimas das arbitrariedades de seu governo - ou ‘‘animais’’, como prefere o filho do ex-ditador - nunca tiveram.
- KIDO GUERRA é jornalista em Brasília

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