O galope da ignorância
O galope da ignorância
Depois de anos de advertências quanto à degradação do ensino das Humanidades, o fato não deveria causar surpresas. Mas, ao noticiá-lo, o Jornal do Brasil (02/11/97) não pôde escapar da velha comparação, sempre equivocada: Nem leis de Newton, nem polinômios, nem logaritmos. Física e matemática ganharam uma nova companheira: geografia acaba de ingressar no restrito clube dos vilões do vestibular graças ao seu desempenho no exame da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A matéria derrubou milhares de candidatos no vestibular de 97 com a média de notas mais baixas da UFRJ, apenas 1,56 pontos em 10. E mais: ficou em terceiro lugar na primeira fase da UERJ (7,09 acertos em 15 questões) e em quarto lugar na UFF (8,14 acertos em 20 questões).
Entrevistados, professores e alunos repetiram o conhecido refrão: a carga horária destinada pelas escolas e cursinhos de Geografia é ínfima em relação às demais matérias, os programas são longos, os temas são complexos e já não predomina a velha concepção de Geografia como coleção de nomes dados aos fenômenos naturais. Ora, não resta dúvida que isto é verdade. Mas não é de hoje que as disciplinas humanísticas têm sido preteridas nas escolas. Por isso, uma das questões que precisamos colocar é a seguinte: por que foi só agora que a ignorância geográfica (nos termos estabelecidos pelas provas de vestibular, é bom que não se esqueça) se tornou motivo de espanto?
Segundo um professor do curso GPI, um dos maiores do Rio, com o fim do regime militar houve uma renovação profunda no ensino de Geografia, porém, se a matéria ficou melhor com a discussão de temas atuais, nem por isso ficou mais fácil. O que ocorreu foi uma inversão perigosa. Largaram as decorebas de livros e passaram a acreditar que a leitura dos jornais seria o bastante para enfrentar geografia no vestibular. Os cursinhos e as escolas não se reorganizaram de imediato em função de tais mudanças.
Digamos que aquilo que se cobra nas provas de vestibular seja um bom termômetro para avaliar tais conhecimentos. Como ficam os materiais didáticos? As apostilas, em geral colagens de pedaços de compêndios, continuam estimulando a simples memorização, pois não oferecem narrações e análises interessantes. Como ficam as aulas? Os docentes entulhados de tarefas (razão que não exclui uma certa quantidade de preguiçosos), terminam fazendo o mesmo que seus alunos. Decoram o conteúdo das apostilas e acabam confundindo o conhecimento geográfico, que, por definição, é plástico e mutante, com a pilha de dados espalhados pelo material didático. Vai realmente adiantar o simples aumento da carga horária? E se, no ano que vem, o vilão for outra disciplina das Humanidades? Vai adiantar expandir as horas de História ou Literatura? Vai ser de efetivo valor didático-pedagógico botar a garotada dentro da sala em dois ou três turnos de aulas?
Em todas essas perguntas há um componente que muitos docentes não gostam de evocar. Se, de fato, a distribuição das disciplinas nas grades curriculares, a partir dos anos 70, pendeu inteiramente para as chamadas Ciências Exatas ou Naturais, não tem cabimento responsabilizar tão somente a doutrina educacional alienante implementada pelos tecnocratas e militares. A unificação do Segundo Grau redefiniu as dimensões físicas e pedagógicas das escolas. Muitos professores perderam aulas e foram forçados a multiplicar seu local de trabalho. Contradições profundas surgiram no seio do magistério. Cada grupo puxando a brasa para a sua sardinha, embora aqueles que lecionam as Ciências Naturais tenham sido favorecidos. Não demorou para que projetos didático-pedagógicos integrados e integradores fossem considerados puro idealismo e varridos para debaixo dos tapetes rotos das salas dos professores. Muitos destes, despreocupados com uma visão profunda e ampla dos objetivos educacionais, aderiram à idiotia tecnocrata e passaram a incentivar o desinteresse pelas Humanidades entre seus alunos. Alguns, embasbacados com o convite ao alheamento do mundo, chegaram ao ponto de achincalhar as matérias alheias, agindo como imbecis que não merecem cuidar de nossas crianças e adolescentes.
Perguntas: não seria melhor aproveitar o escândalo da ignorância geográfica para rediscutir o modelo de Segundo Grau que temos hoje e a forma de organização dos concursos vestibulares? Já não está na hora de avançar em algumas possibilidades abertas pela nova LDB e pensar na implantação de vestibulares setorizados por cursos ou grupos de cursos afins? Mais: não seria melhor detonar de uma vez por todas esta grade curricular herdada do século 19 e inadequada para a formação educacional em fins de século 20? Ou então: não seria o caso de começar a reaprender a travar debates didáticos-pedagógicos nas salas dos professores?
Afinal, se o conhecimento de temas políticos e econômicos atuais parece ser a tônica dos vestibulandos, as pressões feitas pela elite dirigente por mudanças na educação brasileira, tendo em vista sua maior adequação à globalização da economia, não demonstram a menor preocupação com a formação de crianças e adolescentes para uma cidadania mais consciente e justa. Pelo contrário, reduzem, tal como a maioria dos empresários do setor escolar vêm fazendo há muitos anos, a educação a um mero negócio destinado a melhor reproduzir o capital. Como simples forma de qualificação de mão-de-obra para maiores ganhos dos investidores, a educação que a grande burguesia globalizada pretende para o País nada mais será que um reforço da ignorância, geográfica ou qualquer outra que vem a galope, montada na garupa da busca do lucro imediato e a todo preço.
- JOSÉ HENRIQUE ROLLO GONÇALVES é professor de História da América na Universidade Estadual de Maringá.





