O futuro já foi aceitável
O governo se prepara e com razoável antecedência para as comemorações do sesquicentenário de emancipação política do Paraná. Quando fizemos o nosso Centenário, a que regularmente faço remissão, em 1953, vivíamos um momento especial, pois o nosso potencial era fantástico e não fantasioso como o de hoje e tínhamos no governo uma figura ímpar, Bento Munhoz da Rocha Neto.
Deu a impressão de que até os fados contribuíram para que aquele estadista, com porte bem assemelhado ao do presidente Fernando Henrique, na perspectiva intelectual, comandasse aquela comemoração com seus discursos caudalosos e épicos, os maiores da nossa afirmação como civilização e ''vir a ser''. É claro que a vitória de Bento se fez com o prejuízo de outra figura marcante da nossa engenharia, Ângelo Ferrário Lopes, gestor excepcional, tocador de obras. Já o afirmei várias vezes que o ideal seria a soma dos dois como na visão de um ideograma: um, a teoria refinada; outro, a praxis reveladora. Quando vemos as opções atuais para o governo e lembramos desse passado, sem qualquer intento de ''idealizá-lo'', dá, no mínimo, vontade de chorar ou berrar.
ALINHAMENTO ÉPICO Tínhamos três a quatro congressos por dia, poucos regionais, muitos de caráter nacional e alguns mundiais. Dá para imaginar o ponto de convergência na quadra nacional em que o Paraná se transformou. Cobri muitos desses eventos e desfrutei o prazer de ouvir o grande orador (num tempo em que eles existiam, o que hoje inexiste) doutrinando, pregando, a ''unidade na diversidade'', a circunstância de sermos uma ''síntese do Brasil'' e de que aqui se governava para o futuro com visão de escala e isso se traduzia no complexo do Centro Cívico que precedeu a experiência de Brasília de Lúcio Costa-Niemayer (e que os bobalhões contemporâneos deturparam com o alambrado de Jardim Zoológico) e em ações como a do Plano Rodoviário de Luis Carlos Tourinho e no empenho, o primeiro, para uma efetiva diversificação agrícola, até por imposição das ciclópicas geadas que devastavam o parque cafeeiro e recomendavam o uso da chamada lavoura intercalar, alguns anos antes da erradicação.
NOSSA AMNÉSIA O fotógrafo alemão Peter Scheier clicou aquele momento de virada física e humana que arrebatava o Brasil. Mais de 50 mil negativos do artista acabaram desaparecendo dos arquivos do Palácio Iguaçu na sequência das administrações, o que não surpreende por nossa vandálica vocação para a amnésia. Lembro que no governo Pimentel houve a negativa para a compra, pela Biblioteca Pública, do acervo de Adir Guimarães, o mais completo e que acabou ironicamente vendido à Universidade de Camberra, na Austrália. Quem quiser saber coisas do Paraná já pode conhecer o ornitorrinco, o canguru, o coala e o diabo da Tasmânia e pode também brincar com o bumerangue que tem a virtude pedagógica de retornar para o ponto de onde foi lançado. Seria uma alegoria contra esse absurdo cometido contra a nossa memória.
UM MURAL MUTANTE As fotos de Peter Scheier eram como o flagrante de um ciclone, um mosaico de estilos de viver por esse território, rostos de jovens e velhos, das ruas das cidades improvisadas pela civilização cafeeira como um faroeste, o formigueiro do aeroporto de taxis aéreos de Londrina, a humanidade rica e variada, a calma do litoral e do sul, o lay-out dos núcleos de colonização se transformando na bateria que ia das ''águas'' à visão do ''patrimônio'', uma antecipação da rurbana de que tanto se fala. Havia de tudo isso na oratória condoreira de Munhoz da Rocha. Mas tínhamos a noção visceral do futuro, estava na cara, e hoje isso é sáfaro como um deserto pelas amarras de uma crise global e da inutilidade de gestos insensatos como o das concessões exageradas à indústria automotiva, movida a incentivos primários que levam o capitalismo a uma visão primata e assistencial e mínimo de risco. Capitalismo sem risco, e isso vem de Adam Smith, é safadeza, nada mais.





