O futuro dos EUA depende da Ásia - Bill Clinton
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quinta-feira, 25 de junho de 1998
Bill Clinton 
Esta semana eu me tornei o primeiro presidente americano a visitar a China em uma década. Eu faço esta visita de nove dias por uma razão: para promover os interesses dos Estados Unidos. O futuro dos Estados Unidos não será seguro se o da Ásia for duvidoso. Na Península Coreana - onde cerca de 40 mil americanos patrulham uma linha militarizada - as perspectivas de reconciliação são igualadas pelo risco de erros de cálculo. A transformação política e econômica que se processa na Indonésia é promissora, mas incerta. Quando os mercados tremem em Hong Kong ou em Tóquio, nós sentimos os tremores em Wall Street - e na Main Street. E exatamente quando o mundo está fazendo progressos reais na redução do perigo nuclear, os testes da Índia e do Paquistão ameaçam deflagrar uma perigosa corrida armamentista.
Nossa capacidade de resolver esses desafios será profundamente afetada pelas diretrizes políticas seguidas pela China - onde vive a quarta parte da população da terra. Além da Ásia, o papel que a China decidir desempenhar na prevenção ou na instigação da proliferação de armas de destruição em massa, combatendo ou ignorando crimes internacionais, protegendo ou degradando o ambiente, removendo ou erguendo barreiras comerciais e respeitando ou desrespeitando os direitos humanos, ajudará a dar forma ao próximo século.
Em resumo, os Estados Unidos têm interesse em uma China estável, segura e aberta, que adote o pluralismo político, mercados livres e o domínio da lei, e se junte a nós para trabalhar na construção de uma ordem internacional segura. A pergunta é: qual é a melhor maneira de encorajar a emergência desse tipo de China?
Alguns americanos acreditam que os interesses da China e os nossos estão em conflito, inexoravelmente, e que devemos trabalhar para conter a China antes que ela se torne mais forte. Mas isolando a China só estaríamos encorajando aquele país a se voltar para dentro de si mesmo e a agir de modo contrário aos nossos interesses e valores.
Nós escolhemos um caminho prático e baseado em princípios: ampliar nossas áreas de cooperação com a China e ao mesmo tempo tratar diretamente das divergências existentes entre nós, sobretudo em relação aos direitos humanos.
Trabalhar com a China convém ao nosso interesse por uma Ásia estável. A China uniu-se a nós na condenação da Índia e do Paquistão pelos testes nucleares que fizeram, e na exortação ao emprego de soluções pacíficas para as suas diferenças. Ela apoiou as Conversações Quadrilaterais sobre a Península Coreana e nossos esforços bem-sucedidos para congelar o perigoso programa nuclear da Coréia do Norte. Ajudou a impedir a propagação da crise financeira asiática. E a China está, novamente, participando de conversações, através do Estreito, com Taiwan, contribuindo para uma significativa redução das tensões.
Trabalhar com a China convém ao nosso interesse em impedir a propagação de armas nucleares, químicas e biológicas. Na última década, ela aderiu a todos os regimes de controle de armas mais importantes. E a China concordou em parar de dar ajuda ao programa nuclear do Irã; em pôr fim à sua assistência a instalações nucleares sem salvaguardas, como as do Paquistão; em tornar mais rígido o seu sistema de controle de exportações e em não vender mais mísseis de cruzeiro anti-navios ao Irã. Todos esses passos foram produto do nosso envolvimento.
Trabalhar com a China convém ao nosso interesse em combater o crime internacional e o tráfico de drogas. Fazendo fronteiras com mais de uma dúzia de países, a China converteu-se em um ponto de baldeação de drogas e lavagem de dinheiro. Na conferência de cúpula de Washington, o presidente Jiang e eu estabelecemos um grupo de alto nível de agentes da lei americanos e chineses, para aumentar a nossa cooperação contra o crime organizado, contrabando feito por estrangeiros e falsificações. Este mês a Drug Enforcement Administration abrirá um escritório em Pequim.
Trabalhar com a China serve ao nosso interesse em preservar o ambiente. O ar envenenado ou a água poluída dentro das fronteiras chinesas poderão causar sérios danos além das fronteiras. No ano passado, o vice-presidente Gore iniciou conversações com os chineses sobre a proteção do ambiente da China, paralelamente ao desenvolvimento do país. Continuaremos a trabalhar para levar a tecnologia clean (tecnologia limpa) de energia dos Estados Unidos para a China.
Trabalhar com a China favorece o nosso interesse em abrir o comércio. O acesso aos seus mercados continua a ser muito restrito. Poderíamos fazer retaliação e dar início a um ciclo de protecionismo autoderrotante. Ou podemos continuar a pressionar a China para que abra seus mercados e se una à Organização Mundial de Comércio, em termos comercialmente significativos. E podemos renovar o tratamento comercial normal para a China, como todos os presidentes vêm fazendo desde 1980.
Nosso envolvimento com a China também é o melhor meio de promover os nossos ideais. Quanto mais para perto do mundo trouxermos a China, tanto mais o mundo levará liberdade à China. O número de contas abertas na Internet, na China, deverá saltar de cerca de 400 mil este ano para 20 milhões no início da próxima década. Um entre cada cinco habitantes de Pequim tem acesso à TV via satélite.
Mas os líderes da China devem compreender que o seu país só atingirá seu potencial pleno se o seu povo tiver permissão de atingir o seu. A verdadeira riqueza de uma nação reside na capacidade de seu povo de criar, comunicar-se e inovar. Para desenvolver essa capacidade, as pessoas têm de ter liberdade de falar, publicar, associar-se e praticar sua religião sem medo.
Os Estados Unidos continuarão a exortar os líderes da China a se mover para o lado certo da história no que se refere aos direitos humanos e à liberdade religiosa. No decorrer do último ano vimos progressos reais - embora ainda estejam longe de ser suficientes. A China libertou vários dissidentes de destaque; anunciou sua intenção de assinar a Convenção Internacional sobre Direitos Civis e Políticos. E o presidente Jiang recebeu uma delegação de importantes líderes religiosos americanos.
com os líderes chineses insistirei na questão dos direitos humanos, tendo um objetivo em mente: tornar isso importante para eles. Lidar diretamente com os chineses e falar francamente com eles é a melhor maneira de conseguir isso. Quanto à necessidade de promover os interesses americanos na China, na Ásia e no mundo todo, estaremos em melhor situação trabalhando com a China do que sem ela.
- BILL CLINTON é presidente dos EUA


