O futuro do PSDB
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de junho de 1997
Beto Richa 
O PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira nasceu no momento em que as opções partidárias no país não representavam mais um abrigo para os homens que prezavam a ética na política. Naquele momento, homens como Fernando Henrique Cardoso, José Richa, Pimenta da Veiga, Euclides Scalco, José Serra, Franco Montoro, Mário Covas, Arthur da Távola, e tantos outros, assinavam o manifesto do novo partido inspirado no lema: Longe das benesses oficiais, mas perto do pulsar das ruas, tudo sob a égide do Parlamentarismo.
O partido nascia com um programa avançado, diretrizes ideológicas claras e uma forma de atuação que abdicava do trabalho de cúpula, valorizando a militância que nas outras legendas só significavam estatísticas partidárias. Uma das preocupações era a forma colegiada de direção partidária.
Quase uma década depois, bastou chegar ao poder para que alguns dirigentes do PSDB não tivessem a clareza de que tínhamos participado de uma aliança eleitoral e, em nome da famigerada tese de governabilidade, escancarassem as portas do partido e promovessem um festival de filiações. No mínimo, podemos dizer que o PSDB teve transformado e desfigurado o ideário social-democrata.
Confesso que hoje estou receoso com os rumos que tomaram essas filiações e está se tornando cada vez mais difícil recuperar os preceitos elencados no programa do PSDB, visto que teríamos que passar por um período de purificação ética interna - expulsar os infiéis, os fisiológicos e adesistas que vieram para o nosso partido com sentimentos arrivistas em relação ao poder central.
Para resgatarmos a proposta original do PSDB e oxigenar os outros partidos políticos brasileiros, é fundamental que nós, homens que prezam os bons princípios e a ética na política, participemos da discussão que acontece no Congresso Nacional em torno da nova legislação eleitoral para 98.
Devemos marcar nossa posição para que se fixe regras rígidas visando o fortalecimento da Democracia e a vida interna dos partidos políticos no Brasil: Sou defensor da adoção do voto distrital misto e da fidelidade partidária (com o mandato pertencendo ao partido e não mais ao eleito).
O inchaço do PSDB, já admitido por suas lideranças nacionais, é um erro de percurso que nos coloca numa encruzilhada. Ou vamos até as últimas consequências para retomarmos o rumo definido no programa original do PSDB, ou estaremos fadados a ter o mesmo destino que outras agremiações tiveram ao receber filiados sem nenhuma postura ética ou moral. Muitos, aliás, que já passaram por quase uma dezena de partidos e sempre procuram se abrigar naquele que está no poder.
Diante de tal situação, apesar de o PSDB estar à frente dos destinos do país, sinto-me frustrado porque vejo que hoje o partido está menosprezando suas diretrizes originais, o que possivelmente frustrará as expectativas da população - fato ocorrido com outras legendas brasileiras.
E foi motivado por esses sentimentos que aqueles homens assinaram o manifesto do PSDB em 88, tendo muitos já abandonado a vida partidária. É preciso evitar que isto continue a acontecer. Temos que mobilizar as bases originais de nosso partido para trazer de volta ao nosso convívio os históricos do PSDB, para consolidarmos a prática democrática e amenizarmos os desencontros que hoje vivenciamos.


