O FUTURO DO AGRONEGÓCIO - Política econômica e transporte exigem reformulação e adequação
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de julho de 2003
Especial para a Folha 
''A aptidão brasileira para o agronegócio é fantástica, pois combina a disponibilidade de quase 6 milhões de quilômetros quadrados de terras cultiváveis, climas favoráveis, uma imensa disponibilidade de água doce e energia renovável.'' A afirmação é do economista e consultor de empresas Luiz Antonio Fayet, também ex-deputado federal e ex-presidente do Banco do Brasil, e foi feita durante uma audiência pública sobre a logística de transporte no extremo Sul, com a participação de todos os segmentos da sociedade regional ligados à atividade.
Fayet, que participou do evento na condição de representante da Federação da Agricultura do Paraná e também do agronegócio, apresentou uma avaliação da produção, das exportações das principais cadeias produtivas do agronegócio do Paraná e das suas perspectivas futuras, especialmente até 2010, que na verdade são muito similares nos três estados do Sul. O texto a seguir é de Fayet:
''Os maiores países do mundo não possuem tal estoque de terras aproveitáveis nem climas tão pródigos e, de outro lado, possuem altas densidades populacionais, dificultando o auto abastecimento nesses segmentos da economia. Nesse contexto, o Paraná é ainda muito mais privilegiado. A avaliação das projeções realizadas registrou, inicialmente, a existência de mercados internacionais crescentes para as nossas principais cadeias do agronegócio e uma grande capacidade competitiva para ocupá-los.
Os principais segmentos analisados foram: a cana de açúcar, em que a necessidade mundial de reduzir o impacto da emissão de gases poluentes no setor automotivo encontrou no álcool um grande aliado, abrindo mercado especialmente para uso de misturas numa frota de algumas centenas de milhões de unidades. Adicionalmente, o país tem importado em torno de 350 mil barris de petróleo/dia, cuja substituição por si só já demandaria triplicar o atual parque sucro-alcooleiro nacional, gerando perto de um milhão e meio de empregos.
Hoje o Brasil detém a melhor tecnologia do mundo no setor que, aliada às condições da natureza, garante a competitividade. Nosso açúcar de cana, por exemplo, custa perto da metade do que o de beterraba.
No Paraná, a produção de cana cresceu 140% entre 1990 e 2002 e em 2002 as exportações de açúcar atingiram 2,2 milhões de toneladas por Paranaguá, enquanto as de álcool ainda não começaram, mas o interesse em contratos é muito grande.
Quanto ao segmento florestal, o balanço de oferta e demanda de produtos florestais no mundo começou a entrar num cenário de dificuldades crescentes de abastecimento.
A recuperação da oferta mundial encontra entraves consideráveis, como a indisponibilidade de áreas para abrigar uma atividade de ciclo longo 10 a 50 anos e a pressão muito forte para produzir alimentos de cultura anual, visando abastecer os imensos contingentes populacionais de bilhões de pessoas, especialmente na Ásia e na Europa. Quanto à competitividade, as nossas terras e as condições climáticas permitem que se obtenha em um ano o que leva entre 6 e 10 anos para ser obtido nas áreas tradicionais de produção florestal plantada do mundo.
Como principal produtor de madeiras e derivados, o Estado exportou por Antonina e Paranaguá em 2002, mais de 1,5 milhão de toneladas de papel, celulose, madeiras e manufaturas diversas, representando um acréscimo de 128% sobre o ano de 1997.
Na cadeia produtiva de soja, com a melhor produtividade natural e tecnologia nivelada com os grandes produtores mundiais (EUA - 74,2; Argentina - 35 e Brasil com 52 milhões de toneladas), estamos deslocando os EUA no mercado internacional, especialmente na disputa dos mercados asiáticos e europeu.
Além desses fatos, dentre os três, o Brasil é o grande produtor de soja convencional, enquanto os outros dois se especializaram em soja transgênica. Se as tendências mercadológicas atuais prevalecerem, isto poderá nos dar uma vantagem adicional nos principais mercados, que estão criando restrições crescentes àqueles produtos. Para o Brasil, as estimativas sinalizam um volume exportável de 37 milhões de toneladas em 2003.
A produção paranaense de soja cresceu 103% no período 1990/2002 e as exportações do complexo passaram, de 10,1 para 11,9 milhões de toneladas no período 1997/2002.
No segmento de carnes, favorecido também pela disponibilidade de terras e variados contextos climáticos, o Brasil se especializou com alta produtividade e tecnologia, na produção do apelidado ''boi verde'', criado a pasto, e dispõe do maior rebanho comercial do mundo, com aproximadamente 160 milhões de cabeças. Este diferencial qualitativo e de custos ampliou substancialmente nossa capacidade competitiva na bovinocultura de corte, especialmente após a ocorrência da doença da ''vaca louca'' na Europa e no Canadá.
Os admiráveis esforços desenvolvidos por pecuaristas, suas instituições e os governos, no sentido de resguardar a sanidade dos rebanhos e proceder a rastreabilidade dos produtos, conferiram maior poder competitivo.
No tocante a suínos e aves, a situação é mais favorável ainda, pela disponibilidade de terras, da alta tecnologia, das condições climáticas que favorecem a decomposição de resíduos e dejetos.
Este ponto é justamente onde os grandes consumidores e produtores mundiais, Europa e Ásia, passaram a ter crescentes problemas ambientais que estão determinando a drástica redução dos criatórios. A disponibilidade de água é outro fator ponderável, pois são necessários ao redor de 25 litros por ave abatida.
Dispondo abundantemente da alimentação básica para esses animais soja e milho a produção brasileira avança celeremente no mercado internacional. Como maior produtor nacional, o Paraná amplia a ocupação dos mercados externos, tendo exportado por Antonina/Paranaguá 8.000 em 1999 e 52.000 toneladas de carne suína em 2002, e de 239 mil em 1999 para 402 mil toneladas de carne de frango em 2002.
Existem ainda muitas outras cadeias produtivas do agronegócio que poderão representar mais riquezas para nossa economia e mais carga para nosso sistema de transportes, tais como: mandioca, algodão, café, lácteos, dentre outras, que além de representarem valores de exportação atual e potencial de alguns bilhões de dólares, significarão muito mais toneladas de cargas até 2010. Vale lembrar, que o corredor de exportação Antonina/Paranaguá serve à economia de outros estados.
Nossa produção rural lastimavelmente apresenta uma dependência externa, a necessidade de importação de fertilizantes fosfáticos. Em 1997 foi 1,5 e em 2002, 4 milhões de toneladas o volume importado por Antonina/Paranaguá.''


