O futuro da seda em debate
O Estado do Paraná responde por 86% de toda a produção nacional de seda
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quinta-feira, 23 de julho de 2026
O Estado do Paraná responde por 86% de toda a produção nacional de seda
Renata Amano 
Nesta quinta-feira, 23 de julho, estarei em Cândido de Abreu para o 42º Encontro Estadual de Sericicultores. O tema oficial é "Inovação, Futuro e Transformação da Seda no Paraná". O tema real, que atravessa todas as conversas do setor, é mais direto: teremos futuro?
Poucos brasileiros sabem o que o Paraná representa nessa cadeia. O estado responde por 86% de toda a produção nacional de seda. Abriga, em Londrina, a única fiação de seda em operação no Hemisfério Ocidental, a Bratac, que há mais de 85 anos leva o fio produzido por famílias paranaenses a marcas internacionais. Abriga também o projeto Seda Brasil, conduzido pela Universidade Estadual de Londrina. Não é uma atividade em busca de viabilidade: é uma cadeia completa, da amoreira à exportação, construída ao longo de gerações.
E é exatamente essa cadeia que está em risco.
A deriva de agrotóxicos — o veneno aplicado em uma lavoura que o vento carrega para a propriedade vizinha — vem dizimando criações do bicho-da-seda em todo o Estado. O inseto é extremamente sensível a inseticidas e se alimenta de uma única planta, a amoreira. Quando a folha contamina, a perda não é parcial: produtores relataram, na audiência pública de 7 de julho na Assembleia Legislativa, perdas de 100% da safra.
Famílias estão há mais de um ano sem renda. Em Nossa Senhora das Graças, metade dos criadores abandonou os barracões. Nova Esperança, que já foi a capital nacional da seda com 1.500 produtores, hoje resiste com pouco mais de 80.
Quero ser precisa sobre o que defendo, porque este não é um artigo contra o agronegócio. A Bratac é agronegócio. Nossos produtores são vizinhos de sojicultores, muitas vezes são também sojicultores. O bicho-da-seda, aliás, funciona como um bioindicador: quando ele morre pela deriva, está nos avisando sobre o que também atinge abelhas, nascentes e pessoas. Em Mato Rico, a produção de mel caiu de 140 para 30 toneladas anuais. O problema não é a lavoura ao lado, é a aplicação sem regra, sem técnica e sem responsabilidade pelo que sai da porteira.
Reconheço os esforços do IDR-Paraná e da Adapar. A fiscalização oficial mostrou que o monitoramento funciona: a irregularidade dos pulverizadores caiu de mais de 50% para 8% nas áreas acompanhadas. O manejo integrado pode reduzir em até 55% o uso de inseticidas na soja. Mas boas práticas voluntárias não substituem regras claras. O setor pede o que qualquer atividade econômica pede para investir: segurança. Zonas de amortecimento entre lavouras e áreas sensíveis, fiscalização que chegue a tempo de produzir prova, assistência técnica pública à altura de 399 municípios. Os projetos de lei existem e tramitam desde 2019.
Em Cândido de Abreu, um painel me toca de forma particular: "Mulheres que tecem histórias". A sericicultura é, em grande medida, sustentada por mulheres no barracão, na gestão da propriedade, na transmissão do ofício entre gerações. Como mulher à frente da indústria dessa cadeia, sei o que significa esse protagonismo e o que perdemos, como estado, cada vez que uma dessas famílias desiste.
A Bratac encerra a programação do encontro, e o simbolismo importa: a indústria e a ponta produtiva do mesmo lado da mesa. A seda paranaense veste o mundo há quase um século. Que a decisão sobre o seu futuro não seja tomada pelo vento.
Renata Amano, CEO Bratac Seda e presidente da Abraseda (Associação Brasileira da Seda)


