O forró do preconceito
Roberto José da Silva
Quem tem preconceito contra a alegria? Nós. O veredito veio lá do interior da Bahia. E esta verdade doída entrou pelos sete buracos da cabeça feito o incômodo sinal de ocupado depois da implantação dos quilométricos códigos do novo e ‘‘moderno’’ sistema de telefonia do Brasil.
As festas juninas comiam solta no Nordeste, assim como a seca esturricava o chão, e o máximo de movimento que tivemos aqui nessa Curitiba asséptica foi a invasão da Praça Nossa Senhora de Salete pelos sem-terra.
A menina viu a passeata na Cândido de Abreu dois dias antes de embarcar para Salvador. Abriu a porta do avião e sentiu aquele bafo quente que parecia ter saido direto do caldeirão de óleo que frita o acarajé. Duas horas depois, desembarcava de um ônibus na cidadezinha de Cachoeira, no interior do Estado. Aí veio a revelação, comunicada via 21 da Arósio alguns dias depois.
Na rodoviária, foi envolvida pelo som de três conjuntos que disputavam o espaço tocando forrós rasgados. Alguns casais se atracavam entre malas e cuias. Donas de casa saídas de sítios e casas de barro se esgoelavam para acompanhar as sanfonas, zabumbas e triângulos e esquentar o ambiente com músicas feitas por Gonzagão e seus discípulos. Meio dia. Trinta e cinco graus à sombra. Uma gostosona no calendário informava que aquele era um dia de semana, normal, de batente, quarta-feira.
Na semana do Dia de São João, foi decretado feriado em Salvador. Começou na terça-feira à tarde e terminou na segunda-feira seguinte. Os soteropolitanos abandonaram a cidade. Se mandaram para o interior para o rela-bucho santificado. Junho inteiro foi esse festerê. Estão errados?
Imagens das inúmeras festas que aconteceram por lá entraram nos lares curitibanos via televisão. As frases de reação todo mundo conhece, porque saem naturalmente. Vagabundagem é o termo mais suave usado nessas ocasiões. Pois é, o Brasil em crise, desemprego em massa, o dólar que teima em não cair, os escândalos pipocando todos os dias nos jornais, e a turma lá de cima tomando mé e se divertindo. É por isso que o Brasil não vai pra frente, né mesmo?
Né, não, cara-pálida. A carga de preconceito embutida nessas análises rasteiras é enorme. Por que? No fundo, nós temos inveja. Por uma série de motivos, somos reprimidos e não soltamos a franga para extravasar a alegria como os cabeças-chatas fazem com a maior naturalidade. Adotamos o estilo da seriedade de fachada. E isso, muitas vezes, resulta nas barbaridades cometidas quando alguém enche a caveira de ‘‘uca’’ e se sente pronto para a liberação.
Quem diz que nordestino não trabalha, usa um clichê parecido com aquele inventado para engazopar pobre, onde se afirma que dinheiro não traz felicidade. Lá, trabalha-se tanto quanto aqui. Só que aqui só se faz isso. E ai daquele que tenta quebrar essa imagem assumida, porém postiça. É fuzilado por olhares como se estivesse fazendo a maior das barbaridades.
É clássica a história contada pelo jornalista Luiz Geraldo Mazza. Ele, louco de nascença, um dia se entusiasmou com um trio elétrico que passava pela Boca Maldita e deixou-se levar pela alegria. Foi crivado por olhares e balançar de cabeças em sinal de reprovação. Murchou na hora e nunca mais requebrou as cadeiras.
Ok, há a questão cultural, de origem da raça e o escambau a quatro. Mas, isso justifica o preconceito contra alguém que, se não tem dinheiro como nós, se diverte como pode e deve?
É bem provável que um economista destes de plantão saque suas planilhas, pesquisas e prove por A mais B que o País perde tantos ‘zilhões’ enquanto o Severino está lá fungando no cangote da Zefinha. Aí, o garotão que se diverte com o bate-estaca na boate da moda daqui e sempre baba com a luz estrobo e a cerveja importada com limão enterrado no gargalo, ri feito imbecil porque recebeu a confirmação de sua ojeriza pelos nordestinos.
Não me façam pegar nojo! A alegria espontânea daquele povo vale por toda a produção daqui. O trabalho escravo daqui, como o de lá, enche as burras da elite e patrocina desgovernos. Nós, os sulinos trouxas, acompanhamos tudo pelo que a imprensa consegue publicar, nos indignamos, perdemos o tesão da vida e descarregamos a neurose xingando quem prioriza o bem-estar da alma.
Somos seríssimos, sim senhor. Mas nossos coronéis da política só fazem número em Brasília. Os de lá, mandam e desmandam. Às vezes para o bem. Muitas, para o mal. Isso aumenta a revolta dos que se acham inteligentes aqui nesta terra onde já existiram araucárias. Quem está errado?
A menina voltou para Curitiba depois de forrozar durante quase um mês. Os sem-terra continuam na praça. Ela volta ao trabalho na semana que vem. Jura que nunca mais vai falar mal das festanças nordestinas.
- ROBERTO JOSÉ DA SILVA é jornalista em Curitiba

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