O final da peça
Comédia ou drama? Tanto faz. Foi quase numa peça de teatro do absurdo que se transformou o processo da sucessão presidencial no Brasil, marcada essa por lances de puro pastelão. Em outubro, o país responde àquela pergunta. O certo é que hoje, como no velho teatro grego - sem conotação ofensiva, claro -, não faltam à peça coros representando animais. Afinal, muitos coristas - admita-se - ao recitarem seus papéis, passaram dos limites da racionalidade.
Além do episódio recente da polícia que descobriu outras polícias fazendo grampos telefônicos no Maranhão e do conjunto de erros e gafes que se verificaram desde a invasão da fazenda dos filhos do presidente Fernando Henrique pelo MST - quadro, aliás, dramático -, não faltam aos brasileiros motivos para riso e apreensão.
O chefe do órgão oficial de informações recebeu, em tempo, aviso de que o MST se movia rumo àquela propriedade e cruzou os braços. Depois, justificou-se: enganara-se ao interpretar a informação recebida. Seu chefe supremo disse continuar confiando no subalterno, que, antes de admitir o próprio erro, julgara a operação dos sem-terra não um ato de desespero social, mas fato dos mais graves de nossa história. A questão social não é um caso de polícia ? Prisão para todos os líderes !
O mesmo chefe supremo criticou, de início, os sem-terra. Logo, porém, ressaltou - pareceu-lhe importante fazê-lo - que a invasão de sua fazenda familiar atingiria o PT (partido ao qual é ligado o MST), cujo candidato supera, nas pesquisas, a candidatura oficial, por ele escolhida pessoalmente, como se escolhiam governadores, à revelia do povo, no começo da República Velha.
Dois vizires da chefia suprema - um, da Justiça; outro, da Reforma Agrária (que um emissário da ONU julgou insatisfatória) - fizeram idêntica associação. Mais agressivo no ataque aos invasores para derrubar outro adversário eleitoral foi o candidato do chefe, que os chamou de bolcheviques de segunda classe.
Nada, porém, igualou o coro, digno de uma peça euripidiana, da grande mídia brasileira em geral, ao condenar, extremada e tendenciosamente, a desastrada ação dos sem-terra, cujos líderes, humilhados, sob protestos dessa mídia - reconheça-se - foram algemados e postos de rosto na lama da fazenda que haviam invadido.
Parece que os atores citados esperavam a peça da invasão do MST para magnificá-la no palco político e consagrar-se ante a grande platéia eleitoral. Eles querem sucesso e aplauso. Mas, finita la commedia, podem ter vaia e fracasso.
RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





