Na política burguesa, a luta pelo poder faz com que o fim justifique os meios. O seja, nega a ética. Seria lícito e politicamente vantajoso utilizar qualquer meio para obter um fim libertador? Um grupo de lavradores sem-terra poderia torturar um latifundiário para obter uma informação considerada importante para o seu movimento?
A história demonstra que o meio utilizado influi no caráter do fim a ser obtido. A tortura é uma arma do opressor e todo aquele que a utiliza se coloca do lado do opressor, ainda que com finalidades aparentemente ''libertadoras''. Ao torturar, o torturador se desumaniza e desumaniza sua vítima por convocá-la como testemunho de seu opróbrio.
Por isso, os verdadeiros movimentos revolucionários jamais lançaram mão da tortura. Na guerrilha de Sierra Maestra, em Cuba, torturar o inimigo era considerado crime, ainda que se tratasse de um torturador. Primeiro, porque a revolução não é um movimento vingativo. Segundo, porque tratar bem o inimigo é mostrar a ele que a guerrilha, ao contrário do exército burguês, não veio para matar, mas para gerar mais vida. O inimigo preso era trocado por combatentes presos. E quando retornava às suas fileiras, fazia propaganda favorável do movimento revolucionário ao relatar o tratamento digno que recebera.
Um revolucionário que necessita lançar mão da tortura para obter informações demonstra que se afastou do povo. O povo sabe tudo, basta ter vínculos com ele para que a informação flua. Na guerra do Vietnã, os vietcongs eram violentamente torturados pelos militares estadunidenses. Quando um soldado ou um oficial dos EUA caía em mãos dos vietcongs, era bem tratado. Os oficiais eram levados para o antigo Hilton Hotel de Hanói, a capital do Vietnã do Norte, onde ficava também o comando guerrilheiro. Durante anos, a Casa Branca quis bombardear Hanói e nunca pôde fazê-lo, porque teria que matar seus próprios oficiais no Hilton Hotel. Assim, Hanói foi preservada.
Ao terminar a guerra, os prisioneiros foram levados de Hanói para a base naval de Guam, no Pacífico. Entrevistados pela imprensa, revelaram que foram bem tratados e, durante os anos de prisão no antigo hotel, jogaram tênis, usaram a piscina e receberam revistas e jornais dos EUA. A entrevista foi suspensa, sob alegação de que haviam sofrido lavagem cerebral para não contar as torturas sofridas.... Sofriam, segundo os médicos americanos, de ''Síndrome de Estocolmo'', expressão utilizada para definir a admiração da vítima por seu algoz.
FREI BETTO é escritor e assessor da Presidência da República para o Fome Zero

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