O fim do modelo falido - Rubem Azevedo Lima
O fim do
modelo
falido
Rubem Azevedo Lima
Nas cartas escritas ao filho Marco sobre os princípios que deviam nortear a conduta dos homens públicos em termos de honestidade, o tribuno e filósofo romano Cícero destacou, especialmente, o dever de jamais eles enganarem seus concidadãos. Trata-se de advertência que tem mais de dois milênios, mas, pelo que se vê hoje, é cada vez menos seguida, haja vista a crescente rejeição dos eleitores, em quase todo o mundo, aos políticos que os enganam com falsas promessas ou fingem ser uma coisa e são outra, bem diferente.
Como se diz da justiça, algumas rejeições às vezes tardam, mas não falham, seja por via direta ou indireta. O presidente Menem, da Argentina, eleito graças a uma plataforma pretensamente social, conseguiu até reeleger-se, mediante adiamentos sucessivos de seus compromissos políticos e dobrando-se aos interesses estrangeiros. Agora, no entanto, o candidato à sua sucessão, o justicialista Duhalde, está prestes a sofrer derrota acachapante para o neoliberal De la Rúa.
Esse é o fruto do desespero de um povo, ante as decepções que experimentou, em face das falsas promessas do pseudo-socialismo de Menem. Na Áustria, por pouco não acontece o pior: a vitória do candidato nazista, que recebeu 25% dos votos de eleitores decepcionados pelas traições daqueles a quem elegera no pleito anterior. A Alemanha parece estar na mesma trilha perigosa, pois o socialista Gerard Schröoeder, uma vez no poder, abandonou suas convicções sociais democratas e aderiu à idéia da terceira via de Tony Blair, que thatcherizou o trabalhismo.
O eleitorado alemão infligiu a Schröoeder seis derrotas seguidas nas eleições parlamentares. Nessa onda mundial, nem os Estados Unidos escapam. Embora reeleito, sob o argumento de precisar completar seu programa social, o presidente Clinton falhou e vê, agora, a miséria dos pobres crescer no país. Prevê-se que seu candidato presidencial, em novembro do ano 2000, o também democrata Al Gore, seja massacrado eleitoralmente pelo republicano George Bush Jr.
Os eleitores cansaram-se do modelo de economia confiscadora de direitos e conquistas dos trabalhadores, mas não das benesses feitas ao capital financeiro e a grandes grupos multinacionais.
No Brasil, por exemplo, procura-se fazer, em alguns casos até com o apoio de representantes de partidos ditos de esquerda, a cassação de benefícios dos assalariados, a pretexto de cobrir rombos no orçamento, gerados pelo empréstimo de R$ 20 bilhões a bancos falidos; pelo pagamento de juros externos; pela redução dos débitos de R$ 43 bilhões de empresas privadas e de R$ 6 bilhões do próprio governo, à previdência social. Na tentativa de reverter situação tão injusta, ainda se criam no País, a essa altura, programas cosméticos de emprego, mais para salvar empresas em dificuldades do que para atender, consistentemente, às necessidades dos trabalhadores.
Os brasileiros querem mudar o modelo econômico e não só os que o gerenciam e fazem mudanças para que nada mude. O País exigiu no Senado o ex-presidente José Sarney tem de voltar a desenvolver-se e deve fazê-lo juntamente com os vizinhos latino-americanos, abrindo espaços econômicos próprios, como os do Mercosul, mas sem submissões nem satelizações. É uma nova candidatura presidencial, que se junta à de Itamar Franco, no centro do espectro político, outro adversário da economia de dependência, confiscos e estagnação, praticada no país pelos que prometeram combatê-la.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





